Perdido no espaço
Minhas experiências, começando por Cingapura e Ásia, mas não parando por aí.
domingo, 20 de novembro de 2011
Shaolin
Todo praticante de Kung Fu já ouviu falar do templo de Shaolin . É o mítico berço dessa arte marcial ou, ao menos, de várias das suas vertentes. Os monges teriam aprendido a lutar e refinado a arte para defenderem-se dos malfeitores e como forma de praticar disciplina e autocontrole. O templo existe até hoje e fazia tempo que eu queria visitá-lo: imaginava monges vivendo reclusos no alto de uma montanha, acordando às 4 da manhã, praticando 10 horas por dia e ainda cuidando da manutenção do templo, orando e meditando. No meu devaneio, o vilarejo onde o templo estava situado era uma vilinha acessível apenas por estrada de terra que os monges raramente visitavam, recebidos com deferência pelos moradores.
A ideia de visitar Shaolin foi do meu mestre de Hung Gar (um dos estilos do Shaolin). O percurso saía de Cingapura para Beijing, desta para Zhengzhou e depois de ônibus até Dengfeng, onde fica o templo. Na China do século 21 minha visão onírica do templo revelou-se bastante romântica; entretanto, conhecer Shaolin não foi menos interessante por isso. A cidade é de fato bastante pequena para padrões chineses: tem apenas algumas centenas de milhares de habitantes. É toda asfaltada e cruzada o tempo todo por ônibus, caminhões e caminhonetes.
O templo, ao contrário do que imaginei, está tombado como patrimônio histórico e, apesar de acessível para visitantes, não é possível treinar Kung Fu com os monges. Aliás, a maioria dos alunos de Kung Fu não é monge; tampouco o são os professores. Com o crescimento e desenvolvimento do país, as pequenas escolas de Kung Fu que aos poucos foram montadas ao redor do templo floresceram e cresceram. Hoje há dezenas delas; eu mesmo vi algumas e visitei uma, todas enormes complexos com prédios e prédios de alojamentos, salas de aula e de treinamento para milhares de alunos cada, além de grandes pátios para treinamento coletivo. Os pais mandam seus filhos e filhas (provavelmente na proporção de duas meninas para dez meninos) desde muito pequenos para estudarem, treinarem e morarem ali. Vi crianças muito pequenininhas, com cerca de quatro ou cinco anos, morando e treinando na escola. A motivação é que para uma família pobre - muitas vezes do meio rural - ter um filho ou filha treinada em Kung Fu Shaolin representa uma perspectiva de ascensão social considerável. Em vez de lavrador, ele ou ela poderá ser instrutor de artes marciais, segurança ou até mesmo atleta competitivo, artista de demonstrações ou, suprema aspiração, artista de cinema. Por isso, fazem o sacrifício de pagar por uma educação que, para eles, é muito cara. A criança vive em internato nas escolas em Shaolin desde cinco ou seis anos de idade até o fim da adolescência.
Levamos balas e chocolates para as crianças, que adoraram. Riam e paravam em grupos para nos ver passar. No dia da nossa visita estavam dedicados a uma faxina à escola, nos intervalos entre as aulas, refeições e treinamento. Vê-los treinando é muito bacana. Começam cedo, lá pelas cinco ou seis da manha, com uma corrida pela cidade. Seguem com uma ordem unida, às centenas (uniformizados com agasalhos iguais e sapatilhas de luta), em grandes pátios, onde repetem à exaustão diversas rotinas.
Nos pátios da escola que visitamos, criancinhas praticavam os mais diversos golpes; os mais velhos treinavam com armas e os adolescentes praticavam exercícios de enorme atletismo e vigor. Na sala onde fui treinar, forrada por tatames, os meninos e meninas faziam piruetas e saltos comparáveis aos de ginastas olímpicos, sempre culminando com um golpe de perna ou braço. Imaginei essa rotina seis dias por semana, 8 horas por dia e percebi que ali estavam sendo formados superatletas. Uma das escolas se orgulhava de ter formado diversos campeões chineses e mundiais de Wu Shu (o nome pelo qual o Kung Fu competitivo é conhecido).
O hotel em que ficamos é ao lado da escola e pertence ao mesmo dono, um mestre. Toda a sua fachada é decorada com desenhos que evocam Kung Fu, assim como a decoração do saguão. Neste mesmo saguão há uma imensa área de treinamento, assim como no último andar. No hotel hospedam-se pais que vão levar seus filhos para a escola ou visitá-los, assim como estrangeiros ou chineses que vêm passar um tempo aprimorando-se em uma das escolas da cidade. Além das escolas e hotéis, há lojas de artigos para Kung Fu e teatros para exibições da arte marcial. O próprio templo, apesar de não estar ativo, é cheio de história e uma grande atração turística. Pode-se ver o chão marcado por gerações de monges praticando, ou árvores com furos feitos por sucessivos mestres golpeando-as com seus dedos para endurecê-los. Para os praticantes e fãs de artes marciais, a cidade é um verdadeiro parque de diversões.
sábado, 29 de outubro de 2011
Choque cultural no planeta Caras
Levei meu filho menor a uma festa; o menino oferecendo a festa é filho de uma conhecidíssima celebridade televisiva. Após passar pelo rotineiro exército de seguranças (com isto já estou me acostumando, outras festas no Morumbi têm sido assim) e checar o nome na portaria, entramos na mansão. Nada de alguém vir nos receber ou dar as boas vindas. Busquei o pai ou a mãe entre os inúmeros escorregadores e outros brinquedos infláveis: como em todas as festas infantis aonde eu, veterano pai de três, havia ido (no Brasil e fora), esperava cumprimentar algum parente e perguntar a que horas deveria buscar meu filho. Como não encontrasse ninguém, abordei duas senhoras que estavam entre as crianças. Disseram que poderiam me ajudar, pois eram as babás; entretanto não sabiam a que horas deveríamos buscar as crianças. Insolitamente, uma delas consultou uma representante da empresa contratada para servir comidinhas e informou que deveria buscá-lo às 21h.
Na hora indicada, busco o pequeno entre os diversos brinquedos da superprodução montada no jardim da casa. Qual não foi minha surpresa ao encontrá-lo , encharcado, em uma quadra de futebol no sabão! Trata-se de um inflável em formato de quadra de futebol de salão, fartamente irrigado e alimentado por caixas de sabão em pó. Penso comigo se deveria haver levado uma muda de roupa; consulto o convite e verifico que não havia menção a piscina e muito menos a futebol de sabão. Normalmente é de bom tom informar, para que os pais se previnam e preparem uma mochila com a troca.
Após mais cinco minutos de busca e consultas ao exército de monitores e a outras crianças desatendidas, encharcadas e trêmulas, não encontro sequer as babás. Acho, no entanto, informado por outra criança, uma toalha usada, na qual embrulho meu filho. Desisto de achar alguém para despedir-me e rumo ao portão, pensando devolver a toalha lavada na escola no dia seguinte. Entretanto, para minha surpresa, aparecem as tais babás, para dizer que não poderíamos levar a toalha. Bem, é um direito do dono da toalha; entretanto tenho certeza absoluta que, em qualquer outro domicilio do mundo, os pais não deixariam uma criança ir embora molhada. Ofereceriam uma muda de roupa ou, ao menos, uma toalha usada para cobri-la. É um principio de hospitalidade e até de humanidade. Mas aparentemente esse código não conta no mundo das celebridades.
Inocentemente insisti que o menino não poderia ir molhado para casa. Após consulta à patroa (ah, ela estava lá!), esta confirma a falta de delicadeza: não autoriza que levemos a toalha. Fico atônito e retruco que nunca havia visto tamanha falta de hospitalidade, ao que a babá insinua que o erro teria sido meu, já que não havia levado uma muda de roupa. No mundo das celebridades milionárias, a terceirização do cuidado aos filhos já aconteceu. Babás, seguranças e motoristas são os proxis para pais que não querem envolver-se em tarefas mundanas e sem glamour, tais como criar filhos. Como constatei, chocado, babás também são as terceirizadas para a (não) hospitalidade aos hóspedes.
Foi um choque cultural tremendo, dentro da minha própria cidade. Tenho certeza que a babá, na sua casa, não deixaria uma criança convidada ir embora molhada. Entretanto, contaminada pela soberba da patroa, acha natural sabatinar o pai de um convidado e confiscar uma toalha barata, como se aquele estivesse cometendo um furto.
Após anos na Ásia, o choque cultural aconteceu na volta à minha terra. Constato, assombrado, que valores como hospitalidade, boa educação, preocupação com o bem estar do outro e gentileza, que julgava universais, não existem no mundo onde as celebridades e seus pobres feitores habitam. Tamanho é o deslumbramento dos que rastejam em volta dos famosos, que estes se acham no direito de abrir mão da boa educação. Vou embora com a esperança que essa falta de civilidade e humanidade não seja regra no mundo real onde habito. Porque, com absoluta certeza, nem eu nem meus filhos jamais frequentaremos o planeta de Caras e Quem novamente.
Na hora indicada, busco o pequeno entre os diversos brinquedos da superprodução montada no jardim da casa. Qual não foi minha surpresa ao encontrá-lo , encharcado, em uma quadra de futebol no sabão! Trata-se de um inflável em formato de quadra de futebol de salão, fartamente irrigado e alimentado por caixas de sabão em pó. Penso comigo se deveria haver levado uma muda de roupa; consulto o convite e verifico que não havia menção a piscina e muito menos a futebol de sabão. Normalmente é de bom tom informar, para que os pais se previnam e preparem uma mochila com a troca.
Após mais cinco minutos de busca e consultas ao exército de monitores e a outras crianças desatendidas, encharcadas e trêmulas, não encontro sequer as babás. Acho, no entanto, informado por outra criança, uma toalha usada, na qual embrulho meu filho. Desisto de achar alguém para despedir-me e rumo ao portão, pensando devolver a toalha lavada na escola no dia seguinte. Entretanto, para minha surpresa, aparecem as tais babás, para dizer que não poderíamos levar a toalha. Bem, é um direito do dono da toalha; entretanto tenho certeza absoluta que, em qualquer outro domicilio do mundo, os pais não deixariam uma criança ir embora molhada. Ofereceriam uma muda de roupa ou, ao menos, uma toalha usada para cobri-la. É um principio de hospitalidade e até de humanidade. Mas aparentemente esse código não conta no mundo das celebridades.
Inocentemente insisti que o menino não poderia ir molhado para casa. Após consulta à patroa (ah, ela estava lá!), esta confirma a falta de delicadeza: não autoriza que levemos a toalha. Fico atônito e retruco que nunca havia visto tamanha falta de hospitalidade, ao que a babá insinua que o erro teria sido meu, já que não havia levado uma muda de roupa. No mundo das celebridades milionárias, a terceirização do cuidado aos filhos já aconteceu. Babás, seguranças e motoristas são os proxis para pais que não querem envolver-se em tarefas mundanas e sem glamour, tais como criar filhos. Como constatei, chocado, babás também são as terceirizadas para a (não) hospitalidade aos hóspedes.
Foi um choque cultural tremendo, dentro da minha própria cidade. Tenho certeza que a babá, na sua casa, não deixaria uma criança convidada ir embora molhada. Entretanto, contaminada pela soberba da patroa, acha natural sabatinar o pai de um convidado e confiscar uma toalha barata, como se aquele estivesse cometendo um furto.
Após anos na Ásia, o choque cultural aconteceu na volta à minha terra. Constato, assombrado, que valores como hospitalidade, boa educação, preocupação com o bem estar do outro e gentileza, que julgava universais, não existem no mundo onde as celebridades e seus pobres feitores habitam. Tamanho é o deslumbramento dos que rastejam em volta dos famosos, que estes se acham no direito de abrir mão da boa educação. Vou embora com a esperança que essa falta de civilidade e humanidade não seja regra no mundo real onde habito. Porque, com absoluta certeza, nem eu nem meus filhos jamais frequentaremos o planeta de Caras e Quem novamente.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Up in the air
Os dias que precedem uma viagem a trabalho são dias de ansiedade. Por mais que eu viaje e tenha viajado, a sensação não muda. Não que eu não goste de viajar; na verdade, adoro, mas junto com minha família. A perspectiva de estar longe deles, viajando só, me deixa nervoso. Fico preocupado; quem vai trancar as portas? As janelas estão bem fechadas? Tenho saudades só de pensar em não vê-los à noite e de manhã. Fico pensando em como sofrem os pais separados, que não veem seus filhos todos os dias e não acompanham seus pequenos caprichos e progressos diários.
No entanto, ao mesmo tempo, a vida na estrada tem seu encanto. Não e algo palpável ou fácil de descrever. Mas, no instante em que entrei no avião, nesta minha primeira viagem a trabalho após a volta ao Brasil, senti que aquele prazerzinho perverso estava batendo de novo. Dois meses de abstinência não haviam sido suficientes para curar o vicio. É uma sensação parecida com comer doritos. Você sabe que não tem nada de bom ali, mas não consegue parar; ou tomar um pote inteiro de sorvete, ou comer toda uma pizza. Comprar uma besteira no duty free; comer tacos no café da manhã; ficar sentado com alguém te servindo enquanto você assiste a um filme que normalmente não veria no cinema; chegar ao hotel e se esparramar na cama; acumular milhas; abrir o frigobar e comer um monte de chocolate. Tudo isso parece besteira; e é. Mas de alguma maneira vicia.
O viajante a negócios está constantemente em privação emocional. Solitário ou em grupos com quem não escolheu estar. Participando de reuniões que levam sua paciência e sanidade aos extremos do tolerável. Apresentando budgets em que não acredita para pessoas que não respeita. Jantando com pessoas que odeia e fazendo cara de interesse, ou jantando sozinho no restaurante. Pior ainda, para espairecer, pedindo jantar no quarto e comendo solitário assistindo à CNN. As pequenas compensações ajudam-no a mitigar essa sensação fútil de artificialidade e tempo perdido. ‘Estou aqui sozinho, deprimido; bem, vou me permitir um M&M...e um Toblerone...e outro M&M...e três Cocas’. E assim acabamos nos viciando nessas pequenas indulgências.
Eu espero estar em “detox”. Apesar da recaída, sei que esta viagem fiz porque quis e considero realmente importante. Estive em reuniões onde aprendi coisas realmente úteis e com parceiros que escolhi. Consegui, ao menos por ora, deixar de ser um escravo corporativo. Espero que dure, e que a cada viagem sinta menos e menos compulsão por M&M e castanha torrada; e por falar nisso...’aeromoça, você tem mais um saquinho de amendoim?’
No entanto, ao mesmo tempo, a vida na estrada tem seu encanto. Não e algo palpável ou fácil de descrever. Mas, no instante em que entrei no avião, nesta minha primeira viagem a trabalho após a volta ao Brasil, senti que aquele prazerzinho perverso estava batendo de novo. Dois meses de abstinência não haviam sido suficientes para curar o vicio. É uma sensação parecida com comer doritos. Você sabe que não tem nada de bom ali, mas não consegue parar; ou tomar um pote inteiro de sorvete, ou comer toda uma pizza. Comprar uma besteira no duty free; comer tacos no café da manhã; ficar sentado com alguém te servindo enquanto você assiste a um filme que normalmente não veria no cinema; chegar ao hotel e se esparramar na cama; acumular milhas; abrir o frigobar e comer um monte de chocolate. Tudo isso parece besteira; e é. Mas de alguma maneira vicia.
O viajante a negócios está constantemente em privação emocional. Solitário ou em grupos com quem não escolheu estar. Participando de reuniões que levam sua paciência e sanidade aos extremos do tolerável. Apresentando budgets em que não acredita para pessoas que não respeita. Jantando com pessoas que odeia e fazendo cara de interesse, ou jantando sozinho no restaurante. Pior ainda, para espairecer, pedindo jantar no quarto e comendo solitário assistindo à CNN. As pequenas compensações ajudam-no a mitigar essa sensação fútil de artificialidade e tempo perdido. ‘Estou aqui sozinho, deprimido; bem, vou me permitir um M&M...e um Toblerone...e outro M&M...e três Cocas’. E assim acabamos nos viciando nessas pequenas indulgências.
Eu espero estar em “detox”. Apesar da recaída, sei que esta viagem fiz porque quis e considero realmente importante. Estive em reuniões onde aprendi coisas realmente úteis e com parceiros que escolhi. Consegui, ao menos por ora, deixar de ser um escravo corporativo. Espero que dure, e que a cada viagem sinta menos e menos compulsão por M&M e castanha torrada; e por falar nisso...’aeromoça, você tem mais um saquinho de amendoim?’
domingo, 21 de agosto de 2011
Tuol Sleng
Depois de cinco ou seis semanas em São Paulo, sinto que estamos conseguindo estabelecer certa rotina. A casa já não parece um depósito e os compromissos diários já seguem uma certa programação. Com isso, consegui ter tranquilidade para voltar a publicar. Tenho vários textos escritos sobre a Ásia, assim vou continuar contando sobre esse continente encantador. Pretendo dizer, também, como a estada em Cingapura me ajudou a olhar meu país e minha cidade de uma maneira mais ponderada, além de outras histórias.
Tuol Sleng
As crianças até hoje têm pesadelos ao lembrarem-se do museu do genocídio de Phnom Penh, no Camboja. Fica numa antiga escola, transformada em prisão pelo Khmer Vermelho e, depois, transformada em museu. Seu objetivo é contar a história das barbaridades cometidas por Pol Pot e sua gangue, particularmente naquela prisão. Realmente, sente-se um astral bem pesado lá.
Toda a população das cidades, considerada burguesa, foi evacuada para o campo pelo Khmer Vermelho. Lá se criaria uma sociedade pura, agraria e comunal, através da reeducação dos habitantes da cidade. Só que algumas pessoas eram consideradas incorrigíveis e eram mandadas a essas prisões. Normalmente eram professores ou intelectuais. Nelas se cometiam as maiores barbaridades, para que os prisioneiros entregassem outros burgueses irremediáveis. O museu é cheio de fotos de pessoas magérrimas ou mortas, instrumentos de tortura e ainda preserva as celas, cercas e grilhões daquele tempo.
Durante o regime do Khmer Vermelho, os mais jovens eram recrutados para se juntar ao exercito ou para trabalhar no campo. Mais de 1/4 da população do país morreu torturada e morta ou de fome, doenças e exaustão. As crianças eram obrigadas a entregar os pais e muitas vezes presas e mortas junto com eles.
Bem, tudo isso deixa marcas. Nossos guias, uma em Phnom Penh e outro em Angkor Wat, apesar de prestativos, eram tensos e agressivos. Uma deles nos contou histórias horríveis que passou nos acampamentos, as coisas que era obrigada a comer, o medo de ver sua mãe morta e a separação da família. O outro guia não contou nada pessoal, a não ser o quanto não gostava dos vietnamitas; mas pela sua idade calculamos que devia ter lutado junto com o Khmer Vermelho. Era um tipo taciturno, que raramente sorria e morria de ódio dos vietnamitas, que invadiram o país, expulsaram o Khmer Vermelho e aproveitaram para ficar por lá por uns anos. Foi o Camboja o único lugar aonde vimos vendedores ambulantes, além de assediarem intensamente, ficarem agressivos quando decidimos não comprar; uma adolescente xingou, gritou e cuspiu.
Os desmandos e atrocidades do Khmer Vermelho ainda são recentes; até outro dia os seus líderes estavam sendo julgados. Por isso, as cicatrizes ainda estão assim visíveis. Apesar de budista, como muitos outros países do sudeste asiático, no Camboja não conseguimos sentir a gentileza e suavidade no trato que tantas vezes encontramos nos seus vizinhos. Isso não quer dizer, entretanto, que o país não seja fascinante. Apenas Angkor Wat, o complexo de templos do século XII, já vale a visita. E a própria experiência de conhecer um pais que está se esforçando para superar tamanho trauma é muito interessante.
Tuol Sleng
As crianças até hoje têm pesadelos ao lembrarem-se do museu do genocídio de Phnom Penh, no Camboja. Fica numa antiga escola, transformada em prisão pelo Khmer Vermelho e, depois, transformada em museu. Seu objetivo é contar a história das barbaridades cometidas por Pol Pot e sua gangue, particularmente naquela prisão. Realmente, sente-se um astral bem pesado lá.
Toda a população das cidades, considerada burguesa, foi evacuada para o campo pelo Khmer Vermelho. Lá se criaria uma sociedade pura, agraria e comunal, através da reeducação dos habitantes da cidade. Só que algumas pessoas eram consideradas incorrigíveis e eram mandadas a essas prisões. Normalmente eram professores ou intelectuais. Nelas se cometiam as maiores barbaridades, para que os prisioneiros entregassem outros burgueses irremediáveis. O museu é cheio de fotos de pessoas magérrimas ou mortas, instrumentos de tortura e ainda preserva as celas, cercas e grilhões daquele tempo.
Durante o regime do Khmer Vermelho, os mais jovens eram recrutados para se juntar ao exercito ou para trabalhar no campo. Mais de 1/4 da população do país morreu torturada e morta ou de fome, doenças e exaustão. As crianças eram obrigadas a entregar os pais e muitas vezes presas e mortas junto com eles.
Bem, tudo isso deixa marcas. Nossos guias, uma em Phnom Penh e outro em Angkor Wat, apesar de prestativos, eram tensos e agressivos. Uma deles nos contou histórias horríveis que passou nos acampamentos, as coisas que era obrigada a comer, o medo de ver sua mãe morta e a separação da família. O outro guia não contou nada pessoal, a não ser o quanto não gostava dos vietnamitas; mas pela sua idade calculamos que devia ter lutado junto com o Khmer Vermelho. Era um tipo taciturno, que raramente sorria e morria de ódio dos vietnamitas, que invadiram o país, expulsaram o Khmer Vermelho e aproveitaram para ficar por lá por uns anos. Foi o Camboja o único lugar aonde vimos vendedores ambulantes, além de assediarem intensamente, ficarem agressivos quando decidimos não comprar; uma adolescente xingou, gritou e cuspiu.
Os desmandos e atrocidades do Khmer Vermelho ainda são recentes; até outro dia os seus líderes estavam sendo julgados. Por isso, as cicatrizes ainda estão assim visíveis. Apesar de budista, como muitos outros países do sudeste asiático, no Camboja não conseguimos sentir a gentileza e suavidade no trato que tantas vezes encontramos nos seus vizinhos. Isso não quer dizer, entretanto, que o país não seja fascinante. Apenas Angkor Wat, o complexo de templos do século XII, já vale a visita. E a própria experiência de conhecer um pais que está se esforçando para superar tamanho trauma é muito interessante.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Mumbai
Apesar da imagem de pacífica, fama talvez criada pela desobediência civil de Gandhi, a yoga e o hinduísmo, a Índia é bem violenta. Além da séria rixa com o Paquistão, existem tensões religiosas complexas entre hindus e muçulmanos indianos, que muitas vezes descambam para violência. Violência urbana, violência contra mulheres e terrorismo - seja ele patrocinado pelo Paquistão ou interno, promovido por grupos maoístas (os “Naxalitas” do leste do país) – também são fatos comuns. O exército é presença constante nas ruas, estradas e pontos importantes da infraestrutura, como aeroportos.
Apesar da presença massiva das forças armadas em todo lugar e principalmente na segurança do aeroporto – reforçada depois dos atentados terroristas de 2008 em Mumbai - a última coisa que passa pela sua cabeça ao sair-se do aeroporto é que a cidade é refém da violência. Ao contrário, a cidade transpira atividade, é um organismo vivo, vibrante e pulsante. A certeza que tive, cada vez que cheguei lá, é que realmente a Índia é superpovoada. As calçadas não são suficientes e as pessoas transbordam para o meio da rua.
O trânsito incrivelmente anda, apesar das centenas de carros e caminhões espremidos por metro quadrado e dos tuc-tucs (aquela moto coberta, com 3 rodas e 3 lugares), ou “auto-rickshaw”, como eles dizem, buscando espaço entre eles. Todos buzinam ao mesmo tempo mas não é para reclamar, é sim para avisar aos outros que estão passando. Passam a 1 ou 2 dedos um do outro, entram na frente, fecham e cortam.
Quem conhece o Largo 13 de Maio em São Paulo tem uma boa ideia de como é a paisagem em Mumbai. Calçadas tomadas de gente e camelôs, comercio popular, sujeira e água parada pelo chão. Tudo cercado por muitas favelas e obras inacabadas. As obras públicas normalmente têm poucos ou nenhum tapume ou sinalização. São meio abertas ao público, com buracos, ferragens, montes de terra e areia à vista. Demoram incríveis anos para serem finalizadas. E a impressão que tenho, indo de lá para cá pela metrópole, é que 90% dela tem essa cara de largo 13.
Essa é a impressão de um estrangeiro olhando uma cidade imensa que cresceu sem nenhum planejamento, recebendo milhões de pessoas que migraram do campo. Como paulistano, acho que essa também é a impressão que um estrangeiro tem quando chega a São Paulo, vendo a marginal congestionada, os motoboys a 100 por hora entre os carros, aqueles rios poluídos, as prisões perto do aeroporto, as favelas. Mumbai, assim como São Paulo, é o centro financeiro da Índia. Tem a maior indústria cinematográfica do mundo. E, incrivelmente, seus habitantes falam com orgulho e carinho da sua cidade, apesar de muitas vezes gastarem 2 horas para ir e 2 horas para voltar do trabalho, todos os dias. Vai entender...
Apesar da presença massiva das forças armadas em todo lugar e principalmente na segurança do aeroporto – reforçada depois dos atentados terroristas de 2008 em Mumbai - a última coisa que passa pela sua cabeça ao sair-se do aeroporto é que a cidade é refém da violência. Ao contrário, a cidade transpira atividade, é um organismo vivo, vibrante e pulsante. A certeza que tive, cada vez que cheguei lá, é que realmente a Índia é superpovoada. As calçadas não são suficientes e as pessoas transbordam para o meio da rua.
O trânsito incrivelmente anda, apesar das centenas de carros e caminhões espremidos por metro quadrado e dos tuc-tucs (aquela moto coberta, com 3 rodas e 3 lugares), ou “auto-rickshaw”, como eles dizem, buscando espaço entre eles. Todos buzinam ao mesmo tempo mas não é para reclamar, é sim para avisar aos outros que estão passando. Passam a 1 ou 2 dedos um do outro, entram na frente, fecham e cortam.
Quem conhece o Largo 13 de Maio em São Paulo tem uma boa ideia de como é a paisagem em Mumbai. Calçadas tomadas de gente e camelôs, comercio popular, sujeira e água parada pelo chão. Tudo cercado por muitas favelas e obras inacabadas. As obras públicas normalmente têm poucos ou nenhum tapume ou sinalização. São meio abertas ao público, com buracos, ferragens, montes de terra e areia à vista. Demoram incríveis anos para serem finalizadas. E a impressão que tenho, indo de lá para cá pela metrópole, é que 90% dela tem essa cara de largo 13.
Essa é a impressão de um estrangeiro olhando uma cidade imensa que cresceu sem nenhum planejamento, recebendo milhões de pessoas que migraram do campo. Como paulistano, acho que essa também é a impressão que um estrangeiro tem quando chega a São Paulo, vendo a marginal congestionada, os motoboys a 100 por hora entre os carros, aqueles rios poluídos, as prisões perto do aeroporto, as favelas. Mumbai, assim como São Paulo, é o centro financeiro da Índia. Tem a maior indústria cinematográfica do mundo. E, incrivelmente, seus habitantes falam com orgulho e carinho da sua cidade, apesar de muitas vezes gastarem 2 horas para ir e 2 horas para voltar do trabalho, todos os dias. Vai entender...
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Cingapura não é Ásia
Já ouvi várias pessoas dizendo que Cingapura não é Ásia. Querem dizer que ela não tem cara de Ásia, é ocidentalizada. Bom, para começar, a Ásia tem muitas caras; Coréia, Índia, Tailândia e Indonésia, por exemplo, não podem ser mais diferentes um do outro. Cada um tem uma língua (ou muitas, no caso da Índia), as religiões são dispares, as histórias coloniais são diferentes e as origens étnicas diversas. Cingapura tem algumas dessas caras: tem indianos, chineses, malaios, filipinos.
Há muitos ocidentais também, e muitos bairros com cara de ocidente. Prédios altos e modernos, avenidas largas com asfalto liso, carros novos. Muitos shopping centers e lojas de grifes de luxo. Teve um conhecido que disse que tinha odiado a cidade porque era apenas “um monte de shopping centers interligados por passagens subterrâneas”. Uma visão muito superficial, influenciada pelo conceito de que quem não é ocidental deve viver o resto dos tempos em prédios antigos e roupas típicas, para deleite dos turistas. Tanto a Ásia como América Latina e África merecem os confortos materiais que o chamado ocidente alcançou.
Isso Cingapura já conseguiu, de maneira exemplar, em apenas 46 anos de independência; mas tem coisas muito asiáticas. Quem leu um post anterior sabe que os homens que têm pintas no rosto (aquelas bem salientes), deixam crescer os pelos que saem delas. Ficam fios bem longos, como se fosse uma barba, só que só na verruga. Isso é uma tradição chinesa e dizem que dá sorte. Também contei sobre os “food courts” de lá (parecidos com as praças de alimentação daqui), que têm só comida asiática. Tem uma ou outra lojinha que vende “western food”, que geralmente são uns bifes na chapa, files de frango empanados e hambúrgueres servidos com arroz e salada. Mas é só isso; todas as outras têm só têm Nasi Lemak, Nasi Padang e Nasi Goreng, Prata, Dumplings, Chicken e Duck Rice e Noodles, Popiah, Carrot Cake (não aquele coberto de chocolate; é frito e salgado), noodles de todos os tipos, fishballs, curries, mingaus e sopas variados. Muitos dos cingapurianos, principalmente os que trabalham ou casam com ocidentais, enjoam-se rapidamente da sua comida. Gostam mesmo é da comida asiática.
Os taxis dificilmente seriam como são se não fosse na Ásia: os carros tem uma cara normal, mas quando se entra, a primeira coisa que você sente é o cheiro de peixe. Eles passam umas 12 horas por dia no carro e fumam e comem lá. A comida sempre tem um caldo de peixe como base, portanto o carro fica impregnado com aquele cheiro. Os motoristas são bem chineses, falam um inglês quase ininteligível.
A cultura Asiática também impera nas relações. Ninguém levanta a voz e brigas são muito incomuns. Se alguém se destempera, as outras pessoas o consideram muito imaturo e perdem o respeito. O conflito normalmente é evitado e nunca se deve colocar uma pessoa em uma situação que a deixe sem saída ou constrangida – é um supremo desrespeito fazer o outro passar esse tipo de vergonha.
Os avós têm um papel essencial na criação dos netos. Eles praticamente os criam, enquanto os pais trabalham. Muitos casais vivem com os pais e não se incomodam se os avós interferem na educação dos netos – esse é seu papel. Ser idoso é sinal de experiência e conhecimento e não de ultrapassado.
Apesar de a cidade ter crescido muito, ainda se vê por aí um riquixá ou outro, principalmente perto de Chinatown. E por todos os lados veem-se os templos chineses, indianos e mesquitas, não só em Chinatown, Little India ou no bairro malaio. Cingapura não é Ásia só a primeira vista; quando se conhece bem, é Ásia até o pescoço
Há muitos ocidentais também, e muitos bairros com cara de ocidente. Prédios altos e modernos, avenidas largas com asfalto liso, carros novos. Muitos shopping centers e lojas de grifes de luxo. Teve um conhecido que disse que tinha odiado a cidade porque era apenas “um monte de shopping centers interligados por passagens subterrâneas”. Uma visão muito superficial, influenciada pelo conceito de que quem não é ocidental deve viver o resto dos tempos em prédios antigos e roupas típicas, para deleite dos turistas. Tanto a Ásia como América Latina e África merecem os confortos materiais que o chamado ocidente alcançou.
Isso Cingapura já conseguiu, de maneira exemplar, em apenas 46 anos de independência; mas tem coisas muito asiáticas. Quem leu um post anterior sabe que os homens que têm pintas no rosto (aquelas bem salientes), deixam crescer os pelos que saem delas. Ficam fios bem longos, como se fosse uma barba, só que só na verruga. Isso é uma tradição chinesa e dizem que dá sorte. Também contei sobre os “food courts” de lá (parecidos com as praças de alimentação daqui), que têm só comida asiática. Tem uma ou outra lojinha que vende “western food”, que geralmente são uns bifes na chapa, files de frango empanados e hambúrgueres servidos com arroz e salada. Mas é só isso; todas as outras têm só têm Nasi Lemak, Nasi Padang e Nasi Goreng, Prata, Dumplings, Chicken e Duck Rice e Noodles, Popiah, Carrot Cake (não aquele coberto de chocolate; é frito e salgado), noodles de todos os tipos, fishballs, curries, mingaus e sopas variados. Muitos dos cingapurianos, principalmente os que trabalham ou casam com ocidentais, enjoam-se rapidamente da sua comida. Gostam mesmo é da comida asiática.
Os taxis dificilmente seriam como são se não fosse na Ásia: os carros tem uma cara normal, mas quando se entra, a primeira coisa que você sente é o cheiro de peixe. Eles passam umas 12 horas por dia no carro e fumam e comem lá. A comida sempre tem um caldo de peixe como base, portanto o carro fica impregnado com aquele cheiro. Os motoristas são bem chineses, falam um inglês quase ininteligível.
A cultura Asiática também impera nas relações. Ninguém levanta a voz e brigas são muito incomuns. Se alguém se destempera, as outras pessoas o consideram muito imaturo e perdem o respeito. O conflito normalmente é evitado e nunca se deve colocar uma pessoa em uma situação que a deixe sem saída ou constrangida – é um supremo desrespeito fazer o outro passar esse tipo de vergonha.
Os avós têm um papel essencial na criação dos netos. Eles praticamente os criam, enquanto os pais trabalham. Muitos casais vivem com os pais e não se incomodam se os avós interferem na educação dos netos – esse é seu papel. Ser idoso é sinal de experiência e conhecimento e não de ultrapassado.
Apesar de a cidade ter crescido muito, ainda se vê por aí um riquixá ou outro, principalmente perto de Chinatown. E por todos os lados veem-se os templos chineses, indianos e mesquitas, não só em Chinatown, Little India ou no bairro malaio. Cingapura não é Ásia só a primeira vista; quando se conhece bem, é Ásia até o pescoço
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Pepino do mar empanado
No capitulo comidas estranhas a mais destacada é o pepino do mar. Já o vi várias vezes no supermercado, empanado. Não só vi como peguei na mão (o pacote, não o pepino). Fica no refrigerador, numa bandejinha de isopor enrolada em filme plástico transparente. Já comi ovo de formiga, larva de besouro e água viva, então acabei experimentando o pepino em um restaurante. Não tem gosto e me pareceu feito de borracha.
Também tem umas bandejas iguais com pés de frango. Dizem que bem fritinho é gostoso. Não deu vontade. Cabeça de peixe é outra. Apesar de ser considerada uma iguaria, não pedi. Já provei a bochecha do peixe, que é saborosa, mas nunca pedi um prato só de cabeça. Outro dia, num restaurante, o cardápio tinha fotos. Tinha um frango deitado de barriga para cima, com cabeça e tudo. Tínhamos escolhido o prato, mas, quando vimos a foto, passamos para a próxima opção. Os patos e frangos assados ficam pendurados nas vitrines dos restaurantes, inteiros. Outro dia notei que o bico do pato também estava assado, douradinho como o resto. Eles deixam a cabeça para sabermos que é pato mesmo, acho. Esse é uma delícia; servem cortado em tiras com arroz ou, se for pato de Pequim, fazem umas panquecas bem pequenas, recheadas com as fatias do pato, molho e vegetais.
Amigos já comeram cobra, rato e morcego aqui na Ásia; hoje soube de uma brasileira comendo cachorro na Coréia e outros viram o bichinho no açougue. Pensando bem, nós também temos comidas bem estranhas, como pato ao tucupi, buchada de bode, úbere de vaca churrasqueado, dobradinha; a própria feijoada é bem esquisita para quem não está acostumado: um caldo preto, cheio de gordura boiando e com um monte de pedaços não identificados de porco.
Diferente ou estranha, ou não, Cingapura é famosa por sua culinária e pelo gosto que os seus moradores têm pela comida. Existem incontáveis restaurantes, sempre cheios. Os moradores debatem incansavelmente qual o melhor “chilli crab” ou “chicken rice”. O chilli crab, que é um caranguejo gigante cozido e servido num molho denso de tomate e pimenta vermelha, tem um primo, o pepper crab. Este vem num molho de pimenta do reino. Os dois são comidos com as mãos e mergulhando pedaços de pão no molho. Ótimos, mas não é algo que se coma todo dia.
Em todo lugar se encontra boa comida, seja ela tailandesa, indonésia, japonesa, taiwanesa, cingapuriana, malaia, indiana, vietnamita ou cambojana. Tem umas praças de alimentação, como as de shopping centers; só que elas ficam em todos os lugares, incluindo os shoppings. Cada lojinha nessas praças vende comida de um tipo diferente, de todas as especialidades cingapurianas e algumas de outros países asiáticos. Meus favoritos são “popiah”, que é um tipo de panqueca recheada, “prata”, um pão indiano achatado como pão sírio e recheado e “duck rice” ou “duck noodle”, que é o pato assado servido com arroz ou massa e com um molho delicioso. Mas, na minha opinião, o campeão é o “chicken rice”; o arroz é super saboroso, cozido com o caldo do frango. Por cima eles colocam um peito de frango cozido e fatiado bem macio e suculento, uma redução de caldo de frango e molho de soja e fatias de pepino. Come-se com pimenta e molho de soja bem denso. Simples e delicioso.
Nesses “food courts” ou “hawker centers”, as lojinhas especializadas em comida só vendem comida. As bebidas são encontradas em outras lojas, que fazem sucos ou vendem refrescos e refrigerantes. O detalhe é que nenhuma das lojas de comida fornece os guardanapos de papel. Você tem que comprá-los nas lojas de sucos e bebidas por 30 centavos. Eles servem, além de limpar as mãos e a boca, para reservar a mesa. Deixa-se o pacote de guardanapos lá enquanto busca-se a comida. Ninguém rouba o lugar; ou os guardanapos.
Também tem umas bandejas iguais com pés de frango. Dizem que bem fritinho é gostoso. Não deu vontade. Cabeça de peixe é outra. Apesar de ser considerada uma iguaria, não pedi. Já provei a bochecha do peixe, que é saborosa, mas nunca pedi um prato só de cabeça. Outro dia, num restaurante, o cardápio tinha fotos. Tinha um frango deitado de barriga para cima, com cabeça e tudo. Tínhamos escolhido o prato, mas, quando vimos a foto, passamos para a próxima opção. Os patos e frangos assados ficam pendurados nas vitrines dos restaurantes, inteiros. Outro dia notei que o bico do pato também estava assado, douradinho como o resto. Eles deixam a cabeça para sabermos que é pato mesmo, acho. Esse é uma delícia; servem cortado em tiras com arroz ou, se for pato de Pequim, fazem umas panquecas bem pequenas, recheadas com as fatias do pato, molho e vegetais.
Amigos já comeram cobra, rato e morcego aqui na Ásia; hoje soube de uma brasileira comendo cachorro na Coréia e outros viram o bichinho no açougue. Pensando bem, nós também temos comidas bem estranhas, como pato ao tucupi, buchada de bode, úbere de vaca churrasqueado, dobradinha; a própria feijoada é bem esquisita para quem não está acostumado: um caldo preto, cheio de gordura boiando e com um monte de pedaços não identificados de porco.
Diferente ou estranha, ou não, Cingapura é famosa por sua culinária e pelo gosto que os seus moradores têm pela comida. Existem incontáveis restaurantes, sempre cheios. Os moradores debatem incansavelmente qual o melhor “chilli crab” ou “chicken rice”. O chilli crab, que é um caranguejo gigante cozido e servido num molho denso de tomate e pimenta vermelha, tem um primo, o pepper crab. Este vem num molho de pimenta do reino. Os dois são comidos com as mãos e mergulhando pedaços de pão no molho. Ótimos, mas não é algo que se coma todo dia.
Em todo lugar se encontra boa comida, seja ela tailandesa, indonésia, japonesa, taiwanesa, cingapuriana, malaia, indiana, vietnamita ou cambojana. Tem umas praças de alimentação, como as de shopping centers; só que elas ficam em todos os lugares, incluindo os shoppings. Cada lojinha nessas praças vende comida de um tipo diferente, de todas as especialidades cingapurianas e algumas de outros países asiáticos. Meus favoritos são “popiah”, que é um tipo de panqueca recheada, “prata”, um pão indiano achatado como pão sírio e recheado e “duck rice” ou “duck noodle”, que é o pato assado servido com arroz ou massa e com um molho delicioso. Mas, na minha opinião, o campeão é o “chicken rice”; o arroz é super saboroso, cozido com o caldo do frango. Por cima eles colocam um peito de frango cozido e fatiado bem macio e suculento, uma redução de caldo de frango e molho de soja e fatias de pepino. Come-se com pimenta e molho de soja bem denso. Simples e delicioso.
Nesses “food courts” ou “hawker centers”, as lojinhas especializadas em comida só vendem comida. As bebidas são encontradas em outras lojas, que fazem sucos ou vendem refrescos e refrigerantes. O detalhe é que nenhuma das lojas de comida fornece os guardanapos de papel. Você tem que comprá-los nas lojas de sucos e bebidas por 30 centavos. Eles servem, além de limpar as mãos e a boca, para reservar a mesa. Deixa-se o pacote de guardanapos lá enquanto busca-se a comida. Ninguém rouba o lugar; ou os guardanapos.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Urbanitas
Depois de um “city tour” em Colombo, capital do Sri Lanka, ainda tínhamos várias horas e nenhum lugar para ir. Resolvemos, então, ir a um shopping center; arriscamos a recomendação do guia e chegamos à Odel. Não parecia um shopping center convencional, mas uma casa, ou melhor, conjunto de casas. Ao entrar, logo vimos uma série de quiosques de marcas internacionais de cosméticos de luxo e joias, apertados, muito próximos uns aos outros e com muita gente circulando. Passando por uma porta, mais três andares cheios de pessoas e marcas. Não eram propriamente lojas, mas “corners” – pequenas áreas dedicadas a uma marca, mas sem muita delimitação -, cada um com sua marca de luxo internacional ou local. Até o ubíquo sushi bar estava lá.
Muitas pessoas bem vestidas desfilavam com cara de enfado, algumas seguidas por babás com crianças no colo. Não vi nenhum sári ou outra roupa tradicional – todas usavam roupas internacionais. Internacional também era a música, aparentemente muito conhecida pelos adolescentes locais, que as cantarolavam e seguiam o ritmo. Dei-me conta, então, que havíamos chegado ao centro de consumo de luxo da população urbana, globalizada e abastada de Colombo: estava na Daslu do Sri Lanka.
Depois de dias de sáris, sarongues, véus e ate burcas, ver apenas jeans, camisetas e tênis foi uma grande mudança. Foi um choque, um confronto do estereótipo com a realidade; a população urbana de alta renda, penso comigo, é parecida no mundo todo: as roupas são semelhantes, as marcas são as mesmas. Até o visual é parecido: conseguem-se distinguir estilos diferentes e o que cada um quer expressar com seu guarda-roupa. As aspirações de consumo também são universais, com uma ou outra diferença: em Colombo, São Paulo, Cingapura, Mumbai ou Paris, são as Versaces, Armanis, Chanels, MACs e Pradas; Havaianas, Levi’s, Diesels e Nikes que imperam.
Em Chicago ou Pequim, os habitantes das grandes cidades vestem-se de maneira semelhante, gostam das mesmas musicas, querem as mesmas marcas e os mesmos iPads e iPhones. Essa premência de consumir chega a extremos malucos. Outro dia noticiou-se que um adolescente na China vendeu um dos seus rins para conseguir comprar um MacBook e um iPhone. A reportagem mostrava a cicatriz para provar o caso.
Até em Cuba achei uma Daslu; estive lá há alguns anos, mas já naquela época a elite econômica de Havana procurava produtos de consumo de luxo e se vestia como seus primos de Miami. A loja não tinha muita variedade, mas a atitude dos compradores estava lá. Consumir pode ser divertido e as marcas internacionais têm mesmo muito apelo; mas um mundo onde todos se vistam igual vai ser mais sem graça. Vivam os sáris, turbantes, sarongues e guayaberas!
Muitas pessoas bem vestidas desfilavam com cara de enfado, algumas seguidas por babás com crianças no colo. Não vi nenhum sári ou outra roupa tradicional – todas usavam roupas internacionais. Internacional também era a música, aparentemente muito conhecida pelos adolescentes locais, que as cantarolavam e seguiam o ritmo. Dei-me conta, então, que havíamos chegado ao centro de consumo de luxo da população urbana, globalizada e abastada de Colombo: estava na Daslu do Sri Lanka.
Depois de dias de sáris, sarongues, véus e ate burcas, ver apenas jeans, camisetas e tênis foi uma grande mudança. Foi um choque, um confronto do estereótipo com a realidade; a população urbana de alta renda, penso comigo, é parecida no mundo todo: as roupas são semelhantes, as marcas são as mesmas. Até o visual é parecido: conseguem-se distinguir estilos diferentes e o que cada um quer expressar com seu guarda-roupa. As aspirações de consumo também são universais, com uma ou outra diferença: em Colombo, São Paulo, Cingapura, Mumbai ou Paris, são as Versaces, Armanis, Chanels, MACs e Pradas; Havaianas, Levi’s, Diesels e Nikes que imperam.
Em Chicago ou Pequim, os habitantes das grandes cidades vestem-se de maneira semelhante, gostam das mesmas musicas, querem as mesmas marcas e os mesmos iPads e iPhones. Essa premência de consumir chega a extremos malucos. Outro dia noticiou-se que um adolescente na China vendeu um dos seus rins para conseguir comprar um MacBook e um iPhone. A reportagem mostrava a cicatriz para provar o caso.
Até em Cuba achei uma Daslu; estive lá há alguns anos, mas já naquela época a elite econômica de Havana procurava produtos de consumo de luxo e se vestia como seus primos de Miami. A loja não tinha muita variedade, mas a atitude dos compradores estava lá. Consumir pode ser divertido e as marcas internacionais têm mesmo muito apelo; mas um mundo onde todos se vistam igual vai ser mais sem graça. Vivam os sáris, turbantes, sarongues e guayaberas!
terça-feira, 21 de junho de 2011
Como ir a outro planeta sem pegar um foguete
Quem viu Guerra nas Estrelas deve entender. Lembra-se daqueles planetas onde os Jedi chegavam e iam a um tipo de feira livre, ou a um bar, onde desfilavam todos os tipos mais estranhos? Pelas ruas cheias de poeira andavam uns tipos com cinco olhos, outros que pareciam macacos (primos do Chewbacca), uns bichões esquisitos parecidos com dinossauros carregando ET’s com várias pernas? Bom, tenho certeza que o George Lucas inspirou-se na Índia para compor aqueles planetas.
Uma cidade do interior da Índia tem aquela cara. Uns tipos bem altos e magros com roupas brancas e turbantes fazem suas compras. As mulheres com saris de todas as cores. De vez em quando passa um Sadhu só com uns panos enrolados no corpo. Homens e mulheres muçulmanos convivendo com hindus e sikhs. Camelos puxando carroças. Vacas no meio da rua e porcos fuçando montes de lixo. Muita gente para todos os lados, na calçada, no meio da rua. Barraquinhas vendendo de tudo para todos os lados. E os carros buzinando sem parar.
Ao longo da estrada, em cada vila – e tem vila mais ou menos a cada 1 km –, os carros, motos, camelos, lambretas, pessoas, vacas, cachorros, caminhões, bicicletas atravessam a pista. De vez em quando uma moto, um camelo ou até um caminhão aparece na contramão. Algumas motos carregadas de mercadorias ou auto-riquixás com famílias inteiras vão calmamente pelo meio da pista a 30 por hora. Barraquinhas por todos os lados vendendo de tudo na beira da estrada. E o motorista buzinando sem parar. Sem parar não é figura de linguagem. É uma buzinada a cada 15 ou 20 segundos, para que essa turma toda desvie da van que vai passando.
Chegamos a um dos sete rios sagrados da Índia. No caminho até o rio passamos pelo meio de uma vila, onde havia uns trabalhadores dedicados à tarefa de limpar os esgotos. Eles estavam só de sunga (bem, um tipo de sunga, um pano enrolado) e entravam na cisterna com um balde para recolher os dejetos. No rio, centenas de pessoas com roupas típicas celebrando um festival em homenagem ao rio e suas divindades.
De repente chega-se a um lugarejo, onde uma fortaleza de milhares de anos, linda e perfeitamente conservada, o vigia do alto do morro. Subimos na costa de elefantes, que nos levam a visitar o forte. Adoro a Índia, estive lá muitas vezes e quero voltar outras mais, justamente porque é um pais tão singular. Um lugar tão diferente e fascinante que me fez ter a impressão de ter desembarcado no planeta Tatooine.
Uma cidade do interior da Índia tem aquela cara. Uns tipos bem altos e magros com roupas brancas e turbantes fazem suas compras. As mulheres com saris de todas as cores. De vez em quando passa um Sadhu só com uns panos enrolados no corpo. Homens e mulheres muçulmanos convivendo com hindus e sikhs. Camelos puxando carroças. Vacas no meio da rua e porcos fuçando montes de lixo. Muita gente para todos os lados, na calçada, no meio da rua. Barraquinhas vendendo de tudo para todos os lados. E os carros buzinando sem parar.
Ao longo da estrada, em cada vila – e tem vila mais ou menos a cada 1 km –, os carros, motos, camelos, lambretas, pessoas, vacas, cachorros, caminhões, bicicletas atravessam a pista. De vez em quando uma moto, um camelo ou até um caminhão aparece na contramão. Algumas motos carregadas de mercadorias ou auto-riquixás com famílias inteiras vão calmamente pelo meio da pista a 30 por hora. Barraquinhas por todos os lados vendendo de tudo na beira da estrada. E o motorista buzinando sem parar. Sem parar não é figura de linguagem. É uma buzinada a cada 15 ou 20 segundos, para que essa turma toda desvie da van que vai passando.
Chegamos a um dos sete rios sagrados da Índia. No caminho até o rio passamos pelo meio de uma vila, onde havia uns trabalhadores dedicados à tarefa de limpar os esgotos. Eles estavam só de sunga (bem, um tipo de sunga, um pano enrolado) e entravam na cisterna com um balde para recolher os dejetos. No rio, centenas de pessoas com roupas típicas celebrando um festival em homenagem ao rio e suas divindades.
De repente chega-se a um lugarejo, onde uma fortaleza de milhares de anos, linda e perfeitamente conservada, o vigia do alto do morro. Subimos na costa de elefantes, que nos levam a visitar o forte. Adoro a Índia, estive lá muitas vezes e quero voltar outras mais, justamente porque é um pais tão singular. Um lugar tão diferente e fascinante que me fez ter a impressão de ter desembarcado no planeta Tatooine.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Poson Poya Day
Tivemos muita sorte no Sri Lanka, assim como tínhamos tido no Vietnã. Programamos nossa viagem, sem saber, para o período da lua cheia. Para os budistas, essa é uma data especial.
Em Hoi An, no Vietnã, chegamos à cidade para jantar e demos de cara com as ruas cheias e em clima de festa. Lembrei que tinha lido algo e fui conferir - noite de lua cheia. Todo mundo vai para a rua comemorar e a cidade fica em festa. Vimos teatro tradicional na rua, crianças demonstrando artes marciais, sorteios, jogos, barraquinhas vendendo comida e bebida. Tínhamos lido que a tradição lá é apagar todas as luzes da cidade, e tivemos sorte de estar bem ao lado do rio quando isso aconteceu.
As luzes se apagam e todo mundo compra velas de vendedores ambulantes; as velas são montadas em pequenos barquinhos de papel e os próprios vendedores se encarregam de colocá-las no rio. Este fica iluminado, além da lua, pelas inúmeras velas flutuando nas suas águas. É lindo e encantado, uma imagem muito poética; aí começaram os shows. Em barcos montados como carros alegóricos, com figuras de dragões e diversos animais, cantores e conjuntos musicais animam o povo agrupado nas margens. Os barcos são muito coloridos e iluminados; junto às velas boiando completam um espetáculo muito bonito.
No Sri Lanka novamente tivemos a sorte de estarmos na cidade de Kandy em plena lua cheia. Nessa cidade fica o Templo do Dente , que aloja um dente do Buda, uma relíquia muito sagrada para o budismo desse país. Mais do que lua cheia, 15 de junho é o chamado “Poson full-moon poya day”, o dia em que a religião foi introduzida no pais no século 3 aC. Nada mais natural que neste dia especial, feriado aqui, toda a gente visite o templo. A cidade fica em festa; comercio fechado, todo mundo vai para a rua vestido de branco, bandeirinhas por todo lado e barracas distribuindo comida e bebida de graça. Perto do templo, os elefantes sagrados ficam na rua. Tem procissões para todos os lados; vimos uma de motocicletas e outra onde dois elefantes vestidos de vermelho desfilavam no meio da multidão.
O templo é um capitulo à parte. Dezenas de milhares de pessoas vão até lá para ver a urna onde a relíquia está guardada, orar e acender lamparinas de óleo. Nós entramos na fila com todos eles. Foi um certo empurra-empurra, mas a experiência de ter visitado o templo nesse dia foi especial. Todos rezando fervorosamente e avidamente buscando a melhor vista da relíquia; crianças e idosos com a mesma seriedade e respeito pacientemente esperando sua vez de pagar seus respeitos ao Buda. Muitos carregando arranjos de flor de lótus e carinhosamente colocando-os na frente do relicário.
Ao sair de dentro do prédio para o seu jardim, deparamos com centenas de peregrinos vestidos de branco, sentados comendo o almoço oferecido pelo templo. Uma casa de vidro, parecida com uma estufa de plantas, com dezenas de lamparinas acesas sobre prateleiras, enfeitava o pátio. Os elefantes passavam por trás disso tudo, contribuindo para o ambiente quase onírico, completado por macacos escalando as paredes e tentando conseguir um resto de almoço. Nada como estar no lugar certo na hora certa.
Em Hoi An, no Vietnã, chegamos à cidade para jantar e demos de cara com as ruas cheias e em clima de festa. Lembrei que tinha lido algo e fui conferir - noite de lua cheia. Todo mundo vai para a rua comemorar e a cidade fica em festa. Vimos teatro tradicional na rua, crianças demonstrando artes marciais, sorteios, jogos, barraquinhas vendendo comida e bebida. Tínhamos lido que a tradição lá é apagar todas as luzes da cidade, e tivemos sorte de estar bem ao lado do rio quando isso aconteceu.
As luzes se apagam e todo mundo compra velas de vendedores ambulantes; as velas são montadas em pequenos barquinhos de papel e os próprios vendedores se encarregam de colocá-las no rio. Este fica iluminado, além da lua, pelas inúmeras velas flutuando nas suas águas. É lindo e encantado, uma imagem muito poética; aí começaram os shows. Em barcos montados como carros alegóricos, com figuras de dragões e diversos animais, cantores e conjuntos musicais animam o povo agrupado nas margens. Os barcos são muito coloridos e iluminados; junto às velas boiando completam um espetáculo muito bonito.
No Sri Lanka novamente tivemos a sorte de estarmos na cidade de Kandy em plena lua cheia. Nessa cidade fica o Templo do Dente , que aloja um dente do Buda, uma relíquia muito sagrada para o budismo desse país. Mais do que lua cheia, 15 de junho é o chamado “Poson full-moon poya day”, o dia em que a religião foi introduzida no pais no século 3 aC. Nada mais natural que neste dia especial, feriado aqui, toda a gente visite o templo. A cidade fica em festa; comercio fechado, todo mundo vai para a rua vestido de branco, bandeirinhas por todo lado e barracas distribuindo comida e bebida de graça. Perto do templo, os elefantes sagrados ficam na rua. Tem procissões para todos os lados; vimos uma de motocicletas e outra onde dois elefantes vestidos de vermelho desfilavam no meio da multidão.
O templo é um capitulo à parte. Dezenas de milhares de pessoas vão até lá para ver a urna onde a relíquia está guardada, orar e acender lamparinas de óleo. Nós entramos na fila com todos eles. Foi um certo empurra-empurra, mas a experiência de ter visitado o templo nesse dia foi especial. Todos rezando fervorosamente e avidamente buscando a melhor vista da relíquia; crianças e idosos com a mesma seriedade e respeito pacientemente esperando sua vez de pagar seus respeitos ao Buda. Muitos carregando arranjos de flor de lótus e carinhosamente colocando-os na frente do relicário.
Ao sair de dentro do prédio para o seu jardim, deparamos com centenas de peregrinos vestidos de branco, sentados comendo o almoço oferecido pelo templo. Uma casa de vidro, parecida com uma estufa de plantas, com dezenas de lamparinas acesas sobre prateleiras, enfeitava o pátio. Os elefantes passavam por trás disso tudo, contribuindo para o ambiente quase onírico, completado por macacos escalando as paredes e tentando conseguir um resto de almoço. Nada como estar no lugar certo na hora certa.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Viajando
O sudeste asiático é deslumbrante; Cingapura é só uma pequena parte dessa região tão diversa, que engloba também Indonésia, Filipinas, Tailândia, Malásia, Mianmar, Brunei e a antiga Indochina – Laos, Camboja e Vietnã. As comidas são tão diversas e diferentes entre si como a tailandesa e malaia. Tem países budistas, muçulmanos e católicos; comunistas e capitalistas; monarquias e repúblicas; democracias e ditaduras. Cada um fala uma língua diferente e é composto por diferentes grupos étnicos.
O sul da Ásia é outra região interessantíssima. O país mais conhecido é a Índia, que sozinha já é um mundo diferente do planeta Terra. Era o único dos países do sul da Ásia que eu conhecia, além das Maldivas. Agora estou no Sri Lanka. A população daqui veio da Índia há muitos séculos, então tem a mesma cara. Entretanto, a maioria aqui é budista, ao contrario da Índia, onde a maioria é hinduísta.
Para quem conhece os países budistas do sudeste asiático e a Índia, estar aqui é uma sensação estranha. Os templos budistas são parecidos com o que se vê na Tailândia ou Laos, por exemplo; mas as pessoas são iguais aos indianos. Dá certa estranheza.
Apesar de décadas de guerra civil, o pais é bem organizado e pacifico. A guerra acabou faz apenas dois anos e não se vê sinal dela (estamos relativamente longe do norte, onde o conflito aconteceu; mas ainda assim, o pais é pequeno e foi uma guerra civil de 30 anos com final muito violento). Violência urbana é quase desconhecida e ninguém fica assediando os turistas insistentemente para vender lembranças. Não vi ninguém pedindo esmola até agora.
Fomos a um templo construído em umas cavernas nas rochas, no alto de um morro. Tem dezenas de imagens do Buda, cada uma num formato, cor e posição. Lindíssimo e com pouquíssimos turistas. Dividimos o espaço com a população, que vem também visitar e orar.
Como eles não estão acostumados com muitos ocidentais, ficam olhando; devem me achar muito alto (com cabelo branco, estranhíssimo) e as crianças, muito claras. Entramos no templo e elas ficaram do lado de fora. Quando voltamos, descobrimos que eles haviam se tornado atrações turísticas. Todo mundo vinha olhar, pegar e tirar fotos, deles e com eles. Meus filhos, que até então estavam entediados com tantas imagens de Buda, acharam a experiência de celebridades muito divertida.
As viagens de carro de uma cidade a outra têm sido longas, o que contribui para o tédio das crianças (minha mãe bem que falava que criança não aproveita essas viagens...). Ontem, depois de várias horas no carro, vimos um elefante selvagem na beira da estrada. O motorista parou a van para olharmos e...o elefante correu para cima para nos atacar! Ele acelerou, o elefante nos perseguiu por uns metros, a Ana gritou e as crianças ficaram excitadíssimas; eu tentei tirar uma foto mas só peguei a bunda dele. Nada como um ataque de elefante para quebrar a monotonia da viagem.
O sul da Ásia é outra região interessantíssima. O país mais conhecido é a Índia, que sozinha já é um mundo diferente do planeta Terra. Era o único dos países do sul da Ásia que eu conhecia, além das Maldivas. Agora estou no Sri Lanka. A população daqui veio da Índia há muitos séculos, então tem a mesma cara. Entretanto, a maioria aqui é budista, ao contrario da Índia, onde a maioria é hinduísta.
Para quem conhece os países budistas do sudeste asiático e a Índia, estar aqui é uma sensação estranha. Os templos budistas são parecidos com o que se vê na Tailândia ou Laos, por exemplo; mas as pessoas são iguais aos indianos. Dá certa estranheza.
Apesar de décadas de guerra civil, o pais é bem organizado e pacifico. A guerra acabou faz apenas dois anos e não se vê sinal dela (estamos relativamente longe do norte, onde o conflito aconteceu; mas ainda assim, o pais é pequeno e foi uma guerra civil de 30 anos com final muito violento). Violência urbana é quase desconhecida e ninguém fica assediando os turistas insistentemente para vender lembranças. Não vi ninguém pedindo esmola até agora.
Fomos a um templo construído em umas cavernas nas rochas, no alto de um morro. Tem dezenas de imagens do Buda, cada uma num formato, cor e posição. Lindíssimo e com pouquíssimos turistas. Dividimos o espaço com a população, que vem também visitar e orar.
Como eles não estão acostumados com muitos ocidentais, ficam olhando; devem me achar muito alto (com cabelo branco, estranhíssimo) e as crianças, muito claras. Entramos no templo e elas ficaram do lado de fora. Quando voltamos, descobrimos que eles haviam se tornado atrações turísticas. Todo mundo vinha olhar, pegar e tirar fotos, deles e com eles. Meus filhos, que até então estavam entediados com tantas imagens de Buda, acharam a experiência de celebridades muito divertida.
As viagens de carro de uma cidade a outra têm sido longas, o que contribui para o tédio das crianças (minha mãe bem que falava que criança não aproveita essas viagens...). Ontem, depois de várias horas no carro, vimos um elefante selvagem na beira da estrada. O motorista parou a van para olharmos e...o elefante correu para cima para nos atacar! Ele acelerou, o elefante nos perseguiu por uns metros, a Ana gritou e as crianças ficaram excitadíssimas; eu tentei tirar uma foto mas só peguei a bunda dele. Nada como um ataque de elefante para quebrar a monotonia da viagem.
sábado, 11 de junho de 2011
Pintas com pelos
Na Ásia tenho visto alguns estilos interessantes. Tem muita gente que deixa crescer a unha do dedo mindinho, naquele estilo cobrador de coletivo. Dizem que isso sinaliza um certo status, pois a pessoa não estaria fazendo trabalho braçal. Vi isso na Ásia toda e até tirei umas fotos de um motorista, com os dois mínimos adornados por belas unhonas. Outro habito bem diferente é a aversão das asiáticas ao sol. Ao contrario das brasileiras, que ficam horas gratinando ao sol, as orientais querem a pele bem branca. Usam sombrinha, não vão à praia nem a pau e ainda usam cremes para branquear a pele. Até as indianas, que têm a pele naturalmente bronzeada, usam creme para tentar clareá-la um pouco.
Mas o que mais me surpreendeu foi quando vi um homem com um cavanhaque bem diferente. Era bem fino e comprido. Na hora me lembrei dos filmes de kung-fu, em que o mestre tem um cavanhaque bem longo, cultivado por muitos anos. Como eu também tenho cavanhaque, fiquei interessado e olhei com atenção. A barbicha era mesmo curiosa. Era um tufo de pelos e não estava no centro do queixo, era meio deslocada para um dos lados. Ainda sem entender direito, cheguei perto e acabei me dando conta que era uma pinta, daquelas bem grandes. Uma verruga, cheia de pelos crescidos, com mais de 4 dedos de comprimento.
Alguns dias depois, vi mais um homem com pelos cercando a sua verruga, crescidos e muito bem cuidados. Acho até que estavam penteados. Sua pinta era mais para perto do pescoço. Contei para meus filhos, que disseram ter visto um homem com pelos parecidos, dirigindo um dos ônibus da escola. Percebi que não era só um caso isolado e fui pesquisar na internet.
Acabei descobrindo que homens de origem chinesa costumam cultivar os pelos que nascem em volta das suas pintas. Alguns dizem que dá má sorte cortar esses pelos. Outros dizem que tê-los é que traz boa sorte. Alguns ainda dão uma razão prosaica: apará-los ao fazer a barba pode provocar uns cortes muito feios. Mas parece que a explicação tem mesmo a ver com sorte: quanto maiores, mais boa fortuna os pelões vão atrair.
Mas o que mais me surpreendeu foi quando vi um homem com um cavanhaque bem diferente. Era bem fino e comprido. Na hora me lembrei dos filmes de kung-fu, em que o mestre tem um cavanhaque bem longo, cultivado por muitos anos. Como eu também tenho cavanhaque, fiquei interessado e olhei com atenção. A barbicha era mesmo curiosa. Era um tufo de pelos e não estava no centro do queixo, era meio deslocada para um dos lados. Ainda sem entender direito, cheguei perto e acabei me dando conta que era uma pinta, daquelas bem grandes. Uma verruga, cheia de pelos crescidos, com mais de 4 dedos de comprimento.
Alguns dias depois, vi mais um homem com pelos cercando a sua verruga, crescidos e muito bem cuidados. Acho até que estavam penteados. Sua pinta era mais para perto do pescoço. Contei para meus filhos, que disseram ter visto um homem com pelos parecidos, dirigindo um dos ônibus da escola. Percebi que não era só um caso isolado e fui pesquisar na internet.
Acabei descobrindo que homens de origem chinesa costumam cultivar os pelos que nascem em volta das suas pintas. Alguns dizem que dá má sorte cortar esses pelos. Outros dizem que tê-los é que traz boa sorte. Alguns ainda dão uma razão prosaica: apará-los ao fazer a barba pode provocar uns cortes muito feios. Mas parece que a explicação tem mesmo a ver com sorte: quanto maiores, mais boa fortuna os pelões vão atrair.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Saudades
Quando chegamos a Cingapura, em 2009, meu filho menor passou meses falando que estávamos em férias e logo iriamos voltar a São Paulo. A sensação de não ter sua casa, não ter rotina, equivale à sensação de estar em férias, mas sem relaxar. Toda noite comendo pizza, frango frito, macarrão ou então saindo para comer fora, mas ainda assim tendo que trabalhar e ir para a escola: parece uma festa, mas a gente vai ficando estressada e, quando vê, histérica. Criança, principalmente, precisa de rotina. Lembro-me de um filme japonês chamado "A Rotina Tem seu Encanto". Tem mesmo.
Depois de passar quase dois meses num flat, finalmente fomos para casa e começamos a estabelecer certa rotina. Fazia falta jantar em casa. Meu outro filho falou, depois da primeira vez que fizemos um prato que não era macarrão nem ovo mexido: "finalmente comemos comida de verdade!". Passamos dois meses comendo comida de mentira! O que mais eles sentiam falta era de arroz e feijão. Na churrascaria rodizio perto de casa somos fregueses desde aquela época, e conhecidos de todos os garçons, de tanto que íamos e ainda vamos. Na primeira vez que fomos o pequeno, que normalmente é muito agitado e ruidoso, ficou estranhamente quieto. Depois de uns minutos nos demos conta do silêncio e prestamos atenção. Ele estava devorando seu segundo prato de arroz e feijão, um prato de um tamanho que nem eu daria conta.
As saudades também apertavam muito. Não conhecíamos ninguém na cidade, e tínhamos deixado pessoas muito queridas para trás. Aos poucos fomos criando as rotinas e tendo referências. As crianças foram fazendo amigos na escola, no futebol. Nós também conhecemos os pais dos amigos deles e outras pessoas, de quem ficamos amigos. Nossos amigos e família nos visitaram, o que ajudou a mitigar as saudades.
Agora, que a hora de voltar está próxima, começamos a sentir saudades das coisas de Cingapura. É irônico, mas depois de mais de dois anos querendo voltar a São Paulo, agora, quando a volta está iminente, todo mundo fica dividido. Tem coisas muito boas aqui. O Sudeste Asiático é fantástico; Cingapura, apesar de grande e agitada, é surpreendentemente verde: tem árvores por todos os lados, aves e macacos e mais de uma vez vi raposas voadoras (um tipo de morcego). Nós e as crianças temos ótimos amigos, de quem vamos morrer de saudades. Mas a adaptação a São Paulo vai ser rápida; afinal temos muitos amigos e nossa família lá. E ainda tem pão de queijo, coxinha, chopp, feijoada, cozido...
Depois de passar quase dois meses num flat, finalmente fomos para casa e começamos a estabelecer certa rotina. Fazia falta jantar em casa. Meu outro filho falou, depois da primeira vez que fizemos um prato que não era macarrão nem ovo mexido: "finalmente comemos comida de verdade!". Passamos dois meses comendo comida de mentira! O que mais eles sentiam falta era de arroz e feijão. Na churrascaria rodizio perto de casa somos fregueses desde aquela época, e conhecidos de todos os garçons, de tanto que íamos e ainda vamos. Na primeira vez que fomos o pequeno, que normalmente é muito agitado e ruidoso, ficou estranhamente quieto. Depois de uns minutos nos demos conta do silêncio e prestamos atenção. Ele estava devorando seu segundo prato de arroz e feijão, um prato de um tamanho que nem eu daria conta.
As saudades também apertavam muito. Não conhecíamos ninguém na cidade, e tínhamos deixado pessoas muito queridas para trás. Aos poucos fomos criando as rotinas e tendo referências. As crianças foram fazendo amigos na escola, no futebol. Nós também conhecemos os pais dos amigos deles e outras pessoas, de quem ficamos amigos. Nossos amigos e família nos visitaram, o que ajudou a mitigar as saudades.
Agora, que a hora de voltar está próxima, começamos a sentir saudades das coisas de Cingapura. É irônico, mas depois de mais de dois anos querendo voltar a São Paulo, agora, quando a volta está iminente, todo mundo fica dividido. Tem coisas muito boas aqui. O Sudeste Asiático é fantástico; Cingapura, apesar de grande e agitada, é surpreendentemente verde: tem árvores por todos os lados, aves e macacos e mais de uma vez vi raposas voadoras (um tipo de morcego). Nós e as crianças temos ótimos amigos, de quem vamos morrer de saudades. Mas a adaptação a São Paulo vai ser rápida; afinal temos muitos amigos e nossa família lá. E ainda tem pão de queijo, coxinha, chopp, feijoada, cozido...
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