Depois de cinco ou seis semanas em São Paulo, sinto que estamos conseguindo estabelecer certa rotina. A casa já não parece um depósito e os compromissos diários já seguem uma certa programação. Com isso, consegui ter tranquilidade para voltar a publicar. Tenho vários textos escritos sobre a Ásia, assim vou continuar contando sobre esse continente encantador. Pretendo dizer, também, como a estada em Cingapura me ajudou a olhar meu país e minha cidade de uma maneira mais ponderada, além de outras histórias.
Tuol Sleng
As crianças até hoje têm pesadelos ao lembrarem-se do museu do genocídio de Phnom Penh, no Camboja. Fica numa antiga escola, transformada em prisão pelo Khmer Vermelho e, depois, transformada em museu. Seu objetivo é contar a história das barbaridades cometidas por Pol Pot e sua gangue, particularmente naquela prisão. Realmente, sente-se um astral bem pesado lá.
Toda a população das cidades, considerada burguesa, foi evacuada para o campo pelo Khmer Vermelho. Lá se criaria uma sociedade pura, agraria e comunal, através da reeducação dos habitantes da cidade. Só que algumas pessoas eram consideradas incorrigíveis e eram mandadas a essas prisões. Normalmente eram professores ou intelectuais. Nelas se cometiam as maiores barbaridades, para que os prisioneiros entregassem outros burgueses irremediáveis. O museu é cheio de fotos de pessoas magérrimas ou mortas, instrumentos de tortura e ainda preserva as celas, cercas e grilhões daquele tempo.
Durante o regime do Khmer Vermelho, os mais jovens eram recrutados para se juntar ao exercito ou para trabalhar no campo. Mais de 1/4 da população do país morreu torturada e morta ou de fome, doenças e exaustão. As crianças eram obrigadas a entregar os pais e muitas vezes presas e mortas junto com eles.
Bem, tudo isso deixa marcas. Nossos guias, uma em Phnom Penh e outro em Angkor Wat, apesar de prestativos, eram tensos e agressivos. Uma deles nos contou histórias horríveis que passou nos acampamentos, as coisas que era obrigada a comer, o medo de ver sua mãe morta e a separação da família. O outro guia não contou nada pessoal, a não ser o quanto não gostava dos vietnamitas; mas pela sua idade calculamos que devia ter lutado junto com o Khmer Vermelho. Era um tipo taciturno, que raramente sorria e morria de ódio dos vietnamitas, que invadiram o país, expulsaram o Khmer Vermelho e aproveitaram para ficar por lá por uns anos. Foi o Camboja o único lugar aonde vimos vendedores ambulantes, além de assediarem intensamente, ficarem agressivos quando decidimos não comprar; uma adolescente xingou, gritou e cuspiu.
Os desmandos e atrocidades do Khmer Vermelho ainda são recentes; até outro dia os seus líderes estavam sendo julgados. Por isso, as cicatrizes ainda estão assim visíveis. Apesar de budista, como muitos outros países do sudeste asiático, no Camboja não conseguimos sentir a gentileza e suavidade no trato que tantas vezes encontramos nos seus vizinhos. Isso não quer dizer, entretanto, que o país não seja fascinante. Apenas Angkor Wat, o complexo de templos do século XII, já vale a visita. E a própria experiência de conhecer um pais que está se esforçando para superar tamanho trauma é muito interessante.
Um comentário:
Xará, não sabia do seu blog e muito menos que você era esse excelente escritor/contador de histórias. Virei fã!
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