domingo, 20 de novembro de 2011

Shaolin

Todo praticante de Kung Fu já ouviu falar do templo de Shaolin . É o mítico berço dessa arte marcial ou, ao menos, de várias das suas vertentes. Os monges teriam aprendido a lutar e refinado a arte para defenderem-se dos malfeitores e como forma de praticar disciplina e autocontrole. O templo existe até hoje e fazia tempo que eu queria visitá-lo: imaginava monges vivendo reclusos no alto de uma montanha, acordando às 4 da manhã, praticando 10 horas por dia e ainda cuidando da manutenção do templo, orando e meditando. No meu devaneio, o vilarejo onde o templo estava situado era uma vilinha acessível apenas por estrada de terra que os monges raramente visitavam, recebidos com deferência pelos moradores. A ideia de visitar Shaolin foi do meu mestre de Hung Gar (um dos estilos do Shaolin). O percurso saía de Cingapura para Beijing, desta para Zhengzhou e depois de ônibus até Dengfeng, onde fica o templo. Na China do século 21 minha visão onírica do templo revelou-se bastante romântica; entretanto, conhecer Shaolin não foi menos interessante por isso. A cidade é de fato bastante pequena para padrões chineses: tem apenas algumas centenas de milhares de habitantes. É toda asfaltada e cruzada o tempo todo por ônibus, caminhões e caminhonetes.
O templo, ao contrário do que imaginei, está tombado como patrimônio histórico e, apesar de acessível para visitantes, não é possível treinar Kung Fu com os monges. Aliás, a maioria dos alunos de Kung Fu não é monge; tampouco o são os professores. Com o crescimento e desenvolvimento do país, as pequenas escolas de Kung Fu que aos poucos foram montadas ao redor do templo floresceram e cresceram. Hoje há dezenas delas; eu mesmo vi algumas e visitei uma, todas enormes complexos com prédios e prédios de alojamentos, salas de aula e de treinamento para milhares de alunos cada, além de grandes pátios para treinamento coletivo. Os pais mandam seus filhos e filhas (provavelmente na proporção de duas meninas para dez meninos) desde muito pequenos para estudarem, treinarem e morarem ali. Vi crianças muito pequenininhas, com cerca de quatro ou cinco anos, morando e treinando na escola. A motivação é que para uma família pobre - muitas vezes do meio rural - ter um filho ou filha treinada em Kung Fu Shaolin representa uma perspectiva de ascensão social considerável. Em vez de lavrador, ele ou ela poderá ser instrutor de artes marciais, segurança ou até mesmo atleta competitivo, artista de demonstrações ou, suprema aspiração, artista de cinema. Por isso, fazem o sacrifício de pagar por uma educação que, para eles, é muito cara. A criança vive em internato nas escolas em Shaolin desde cinco ou seis anos de idade até o fim da adolescência. Levamos balas e chocolates para as crianças, que adoraram. Riam e paravam em grupos para nos ver passar. No dia da nossa visita estavam dedicados a uma faxina à escola, nos intervalos entre as aulas, refeições e treinamento. Vê-los treinando é muito bacana. Começam cedo, lá pelas cinco ou seis da manha, com uma corrida pela cidade. Seguem com uma ordem unida, às centenas (uniformizados com agasalhos iguais e sapatilhas de luta), em grandes pátios, onde repetem à exaustão diversas rotinas.
Nos pátios da escola que visitamos, criancinhas praticavam os mais diversos golpes; os mais velhos treinavam com armas e os adolescentes praticavam exercícios de enorme atletismo e vigor. Na sala onde fui treinar, forrada por tatames, os meninos e meninas faziam piruetas e saltos comparáveis aos de ginastas olímpicos, sempre culminando com um golpe de perna ou braço. Imaginei essa rotina seis dias por semana, 8 horas por dia e percebi que ali estavam sendo formados superatletas. Uma das escolas se orgulhava de ter formado diversos campeões chineses e mundiais de Wu Shu (o nome pelo qual o Kung Fu competitivo é conhecido).
O hotel em que ficamos é ao lado da escola e pertence ao mesmo dono, um mestre. Toda a sua fachada é decorada com desenhos que evocam Kung Fu, assim como a decoração do saguão. Neste mesmo saguão há uma imensa área de treinamento, assim como no último andar. No hotel hospedam-se pais que vão levar seus filhos para a escola ou visitá-los, assim como estrangeiros ou chineses que vêm passar um tempo aprimorando-se em uma das escolas da cidade. Além das escolas e hotéis, há lojas de artigos para Kung Fu e teatros para exibições da arte marcial. O próprio templo, apesar de não estar ativo, é cheio de história e uma grande atração turística. Pode-se ver o chão marcado por gerações de monges praticando, ou árvores com furos feitos por sucessivos mestres golpeando-as com seus dedos para endurecê-los. Para os praticantes e fãs de artes marciais, a cidade é um verdadeiro parque de diversões.