Os dias que precedem uma viagem a trabalho são dias de ansiedade. Por mais que eu viaje e tenha viajado, a sensação não muda. Não que eu não goste de viajar; na verdade, adoro, mas junto com minha família. A perspectiva de estar longe deles, viajando só, me deixa nervoso. Fico preocupado; quem vai trancar as portas? As janelas estão bem fechadas? Tenho saudades só de pensar em não vê-los à noite e de manhã. Fico pensando em como sofrem os pais separados, que não veem seus filhos todos os dias e não acompanham seus pequenos caprichos e progressos diários.
No entanto, ao mesmo tempo, a vida na estrada tem seu encanto. Não e algo palpável ou fácil de descrever. Mas, no instante em que entrei no avião, nesta minha primeira viagem a trabalho após a volta ao Brasil, senti que aquele prazerzinho perverso estava batendo de novo. Dois meses de abstinência não haviam sido suficientes para curar o vicio. É uma sensação parecida com comer doritos. Você sabe que não tem nada de bom ali, mas não consegue parar; ou tomar um pote inteiro de sorvete, ou comer toda uma pizza. Comprar uma besteira no duty free; comer tacos no café da manhã; ficar sentado com alguém te servindo enquanto você assiste a um filme que normalmente não veria no cinema; chegar ao hotel e se esparramar na cama; acumular milhas; abrir o frigobar e comer um monte de chocolate. Tudo isso parece besteira; e é. Mas de alguma maneira vicia.
O viajante a negócios está constantemente em privação emocional. Solitário ou em grupos com quem não escolheu estar. Participando de reuniões que levam sua paciência e sanidade aos extremos do tolerável. Apresentando budgets em que não acredita para pessoas que não respeita. Jantando com pessoas que odeia e fazendo cara de interesse, ou jantando sozinho no restaurante. Pior ainda, para espairecer, pedindo jantar no quarto e comendo solitário assistindo à CNN. As pequenas compensações ajudam-no a mitigar essa sensação fútil de artificialidade e tempo perdido. ‘Estou aqui sozinho, deprimido; bem, vou me permitir um M&M...e um Toblerone...e outro M&M...e três Cocas’. E assim acabamos nos viciando nessas pequenas indulgências.
Eu espero estar em “detox”. Apesar da recaída, sei que esta viagem fiz porque quis e considero realmente importante. Estive em reuniões onde aprendi coisas realmente úteis e com parceiros que escolhi. Consegui, ao menos por ora, deixar de ser um escravo corporativo. Espero que dure, e que a cada viagem sinta menos e menos compulsão por M&M e castanha torrada; e por falar nisso...’aeromoça, você tem mais um saquinho de amendoim?’
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