sábado, 29 de outubro de 2011

Choque cultural no planeta Caras

Levei meu filho menor a uma festa; o menino oferecendo a festa é filho de uma conhecidíssima celebridade televisiva. Após passar pelo rotineiro exército de seguranças (com isto já estou me acostumando, outras festas no Morumbi têm sido assim) e checar o nome na portaria, entramos na mansão. Nada de alguém vir nos receber ou dar as boas vindas. Busquei o pai ou a mãe entre os inúmeros escorregadores e outros brinquedos infláveis: como em todas as festas infantis aonde eu, veterano pai de três, havia ido (no Brasil e fora), esperava cumprimentar algum parente e perguntar a que horas deveria buscar meu filho. Como não encontrasse ninguém, abordei duas senhoras que estavam entre as crianças. Disseram que poderiam me ajudar, pois eram as babás; entretanto não sabiam a que horas deveríamos buscar as crianças. Insolitamente, uma delas consultou uma representante da empresa contratada para servir comidinhas e informou que deveria buscá-lo às 21h.

Na hora indicada, busco o pequeno entre os diversos brinquedos da superprodução montada no jardim da casa. Qual não foi minha surpresa ao encontrá-lo , encharcado, em uma quadra de futebol no sabão! Trata-se de um inflável em formato de quadra de futebol de salão, fartamente irrigado e alimentado por caixas de sabão em pó. Penso comigo se deveria haver levado uma muda de roupa; consulto o convite e verifico que não havia menção a piscina e muito menos a futebol de sabão. Normalmente é de bom tom informar, para que os pais se previnam e preparem uma mochila com a troca.

Após mais cinco minutos de busca e consultas ao exército de monitores e a outras crianças desatendidas, encharcadas e trêmulas, não encontro sequer as babás. Acho, no entanto, informado por outra criança, uma toalha usada, na qual embrulho meu filho. Desisto de achar alguém para despedir-me e rumo ao portão, pensando devolver a toalha lavada na escola no dia seguinte. Entretanto, para minha surpresa, aparecem as tais babás, para dizer que não poderíamos levar a toalha. Bem, é um direito do dono da toalha; entretanto tenho certeza absoluta que, em qualquer outro domicilio do mundo, os pais não deixariam uma criança ir embora molhada. Ofereceriam uma muda de roupa ou, ao menos, uma toalha usada para cobri-la. É um principio de hospitalidade e até de humanidade. Mas aparentemente esse código não conta no mundo das celebridades.

Inocentemente insisti que o menino não poderia ir molhado para casa. Após consulta à patroa (ah, ela estava lá!), esta confirma a falta de delicadeza: não autoriza que levemos a toalha. Fico atônito e retruco que nunca havia visto tamanha falta de hospitalidade, ao que a babá insinua que o erro teria sido meu, já que não havia levado uma muda de roupa. No mundo das celebridades milionárias, a terceirização do cuidado aos filhos já aconteceu. Babás, seguranças e motoristas são os proxis para pais que não querem envolver-se em tarefas mundanas e sem glamour, tais como criar filhos. Como constatei, chocado, babás também são as terceirizadas para a (não) hospitalidade aos hóspedes.

Foi um choque cultural tremendo, dentro da minha própria cidade. Tenho certeza que a babá, na sua casa, não deixaria uma criança convidada ir embora molhada. Entretanto, contaminada pela soberba da patroa, acha natural sabatinar o pai de um convidado e confiscar uma toalha barata, como se aquele estivesse cometendo um furto.

Após anos na Ásia, o choque cultural aconteceu na volta à minha terra. Constato, assombrado, que valores como hospitalidade, boa educação, preocupação com o bem estar do outro e gentileza, que julgava universais, não existem no mundo onde as celebridades e seus pobres feitores habitam. Tamanho é o deslumbramento dos que rastejam em volta dos famosos, que estes se acham no direito de abrir mão da boa educação. Vou embora com a esperança que essa falta de civilidade e humanidade não seja regra no mundo real onde habito. Porque, com absoluta certeza, nem eu nem meus filhos jamais frequentaremos o planeta de Caras e Quem novamente.

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