quinta-feira, 23 de junho de 2011

Urbanitas

Depois de um “city tour” em Colombo, capital do Sri Lanka, ainda tínhamos várias horas e nenhum lugar para ir. Resolvemos, então, ir a um shopping center; arriscamos a recomendação do guia e chegamos à Odel. Não parecia um shopping center convencional, mas uma casa, ou melhor, conjunto de casas. Ao entrar, logo vimos uma série de quiosques de marcas internacionais de cosméticos de luxo e joias, apertados, muito próximos uns aos outros e com muita gente circulando. Passando por uma porta, mais três andares cheios de pessoas e marcas. Não eram propriamente lojas, mas “corners” – pequenas áreas dedicadas a uma marca, mas sem muita delimitação -, cada um com sua marca de luxo internacional ou local. Até o ubíquo sushi bar estava lá.

Muitas pessoas bem vestidas desfilavam com cara de enfado, algumas seguidas por babás com crianças no colo. Não vi nenhum sári ou outra roupa tradicional – todas usavam roupas internacionais. Internacional também era a música, aparentemente muito conhecida pelos adolescentes locais, que as cantarolavam e seguiam o ritmo. Dei-me conta, então, que havíamos chegado ao centro de consumo de luxo da população urbana, globalizada e abastada de Colombo: estava na Daslu do Sri Lanka.

Depois de dias de sáris, sarongues, véus e ate burcas, ver apenas jeans, camisetas e tênis foi uma grande mudança. Foi um choque, um confronto do estereótipo com a realidade; a população urbana de alta renda, penso comigo, é parecida no mundo todo: as roupas são semelhantes, as marcas são as mesmas. Até o visual é parecido: conseguem-se distinguir estilos diferentes e o que cada um quer expressar com seu guarda-roupa. As aspirações de consumo também são universais, com uma ou outra diferença: em Colombo, São Paulo, Cingapura, Mumbai ou Paris, são as Versaces, Armanis, Chanels, MACs e Pradas; Havaianas, Levi’s, Diesels e Nikes que imperam.

Em Chicago ou Pequim, os habitantes das grandes cidades vestem-se de maneira semelhante, gostam das mesmas musicas, querem as mesmas marcas e os mesmos iPads e iPhones. Essa premência de consumir chega a extremos malucos. Outro dia noticiou-se que um adolescente na China vendeu um dos seus rins para conseguir comprar um MacBook e um iPhone. A reportagem mostrava a cicatriz para provar o caso.

Até em Cuba achei uma Daslu; estive lá há alguns anos, mas já naquela época a elite econômica de Havana procurava produtos de consumo de luxo e se vestia como seus primos de Miami. A loja não tinha muita variedade, mas a atitude dos compradores estava lá. Consumir pode ser divertido e as marcas internacionais têm mesmo muito apelo; mas um mundo onde todos se vistam igual vai ser mais sem graça. Vivam os sáris, turbantes, sarongues e guayaberas!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Como ir a outro planeta sem pegar um foguete

Quem viu Guerra nas Estrelas deve entender. Lembra-se daqueles planetas onde os Jedi chegavam e iam a um tipo de feira livre, ou a um bar, onde desfilavam todos os tipos mais estranhos? Pelas ruas cheias de poeira andavam uns tipos com cinco olhos, outros que pareciam macacos (primos do Chewbacca), uns bichões esquisitos parecidos com dinossauros carregando ET’s com várias pernas? Bom, tenho certeza que o George Lucas inspirou-se na Índia para compor aqueles planetas.

Uma cidade do interior da Índia tem aquela cara. Uns tipos bem altos e magros com roupas brancas e turbantes fazem suas compras. As mulheres com saris de todas as cores. De vez em quando passa um Sadhu só com uns panos enrolados no corpo. Homens e mulheres muçulmanos convivendo com hindus e sikhs. Camelos puxando carroças. Vacas no meio da rua e porcos fuçando montes de lixo. Muita gente para todos os lados, na calçada, no meio da rua. Barraquinhas vendendo de tudo para todos os lados. E os carros buzinando sem parar.

Ao longo da estrada, em cada vila – e tem vila mais ou menos a cada 1 km –, os carros, motos, camelos, lambretas, pessoas, vacas, cachorros, caminhões, bicicletas atravessam a pista. De vez em quando uma moto, um camelo ou até um caminhão aparece na contramão. Algumas motos carregadas de mercadorias ou auto-riquixás com famílias inteiras vão calmamente pelo meio da pista a 30 por hora. Barraquinhas por todos os lados vendendo de tudo na beira da estrada. E o motorista buzinando sem parar. Sem parar não é figura de linguagem. É uma buzinada a cada 15 ou 20 segundos, para que essa turma toda desvie da van que vai passando.

Chegamos a um dos sete rios sagrados da Índia. No caminho até o rio passamos pelo meio de uma vila, onde havia uns trabalhadores dedicados à tarefa de limpar os esgotos. Eles estavam só de sunga (bem, um tipo de sunga, um pano enrolado) e entravam na cisterna com um balde para recolher os dejetos. No rio, centenas de pessoas com roupas típicas celebrando um festival em homenagem ao rio e suas divindades.

De repente chega-se a um lugarejo, onde uma fortaleza de milhares de anos, linda e perfeitamente conservada, o vigia do alto do morro. Subimos na costa de elefantes, que nos levam a visitar o forte. Adoro a Índia, estive lá muitas vezes e quero voltar outras mais, justamente porque é um pais tão singular. Um lugar tão diferente e fascinante que me fez ter a impressão de ter desembarcado no planeta Tatooine.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Poson Poya Day

Tivemos muita sorte no Sri Lanka, assim como tínhamos tido no Vietnã. Programamos nossa viagem, sem saber, para o período da lua cheia. Para os budistas, essa é uma data especial.

Em Hoi An, no Vietnã, chegamos à cidade para jantar e demos de cara com as ruas cheias e em clima de festa. Lembrei que tinha lido algo e fui conferir - noite de lua cheia. Todo mundo vai para a rua comemorar e a cidade fica em festa. Vimos teatro tradicional na rua, crianças demonstrando artes marciais, sorteios, jogos, barraquinhas vendendo comida e bebida. Tínhamos lido que a tradição lá é apagar todas as luzes da cidade, e tivemos sorte de estar bem ao lado do rio quando isso aconteceu.

As luzes se apagam e todo mundo compra velas de vendedores ambulantes; as velas são montadas em pequenos barquinhos de papel e os próprios vendedores se encarregam de colocá-las no rio. Este fica iluminado, além da lua, pelas inúmeras velas flutuando nas suas águas. É lindo e encantado, uma imagem muito poética; aí começaram os shows. Em barcos montados como carros alegóricos, com figuras de dragões e diversos animais, cantores e conjuntos musicais animam o povo agrupado nas margens. Os barcos são muito coloridos e iluminados; junto às velas boiando completam um espetáculo muito bonito.

No Sri Lanka novamente tivemos a sorte de estarmos na cidade de Kandy em plena lua cheia. Nessa cidade fica o Templo do Dente , que aloja um dente do Buda, uma relíquia muito sagrada para o budismo desse país. Mais do que lua cheia, 15 de junho é o chamado “Poson full-moon poya day”, o dia em que a religião foi introduzida no pais no século 3 aC. Nada mais natural que neste dia especial, feriado aqui, toda a gente visite o templo. A cidade fica em festa; comercio fechado, todo mundo vai para a rua vestido de branco, bandeirinhas por todo lado e barracas distribuindo comida e bebida de graça. Perto do templo, os elefantes sagrados ficam na rua. Tem procissões para todos os lados; vimos uma de motocicletas e outra onde dois elefantes vestidos de vermelho desfilavam no meio da multidão.

O templo é um capitulo à parte. Dezenas de milhares de pessoas vão até lá para ver a urna onde a relíquia está guardada, orar e acender lamparinas de óleo. Nós entramos na fila com todos eles. Foi um certo empurra-empurra, mas a experiência de ter visitado o templo nesse dia foi especial. Todos rezando fervorosamente e avidamente buscando a melhor vista da relíquia; crianças e idosos com a mesma seriedade e respeito pacientemente esperando sua vez de pagar seus respeitos ao Buda. Muitos carregando arranjos de flor de lótus e carinhosamente colocando-os na frente do relicário.

Ao sair de dentro do prédio para o seu jardim, deparamos com centenas de peregrinos vestidos de branco, sentados comendo o almoço oferecido pelo templo. Uma casa de vidro, parecida com uma estufa de plantas, com dezenas de lamparinas acesas sobre prateleiras, enfeitava o pátio. Os elefantes passavam por trás disso tudo, contribuindo para o ambiente quase onírico, completado por macacos escalando as paredes e tentando conseguir um resto de almoço. Nada como estar no lugar certo na hora certa.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Viajando

O sudeste asiático é deslumbrante; Cingapura é só uma pequena parte dessa região tão diversa, que engloba também Indonésia, Filipinas, Tailândia, Malásia, Mianmar, Brunei e a antiga Indochina – Laos, Camboja e Vietnã. As comidas são tão diversas e diferentes entre si como a tailandesa e malaia. Tem países budistas, muçulmanos e católicos; comunistas e capitalistas; monarquias e repúblicas; democracias e ditaduras. Cada um fala uma língua diferente e é composto por diferentes grupos étnicos.

O sul da Ásia é outra região interessantíssima. O país mais conhecido é a Índia, que sozinha já é um mundo diferente do planeta Terra. Era o único dos países do sul da Ásia que eu conhecia, além das Maldivas. Agora estou no Sri Lanka. A população daqui veio da Índia há muitos séculos, então tem a mesma cara. Entretanto, a maioria aqui é budista, ao contrario da Índia, onde a maioria é hinduísta.

Para quem conhece os países budistas do sudeste asiático e a Índia, estar aqui é uma sensação estranha. Os templos budistas são parecidos com o que se vê na Tailândia ou Laos, por exemplo; mas as pessoas são iguais aos indianos. Dá certa estranheza.

Apesar de décadas de guerra civil, o pais é bem organizado e pacifico. A guerra acabou faz apenas dois anos e não se vê sinal dela (estamos relativamente longe do norte, onde o conflito aconteceu; mas ainda assim, o pais é pequeno e foi uma guerra civil de 30 anos com final muito violento). Violência urbana é quase desconhecida e ninguém fica assediando os turistas insistentemente para vender lembranças. Não vi ninguém pedindo esmola até agora.

Fomos a um templo construído em umas cavernas nas rochas, no alto de um morro. Tem dezenas de imagens do Buda, cada uma num formato, cor e posição. Lindíssimo e com pouquíssimos turistas. Dividimos o espaço com a população, que vem também visitar e orar.

Como eles não estão acostumados com muitos ocidentais, ficam olhando; devem me achar muito alto (com cabelo branco, estranhíssimo) e as crianças, muito claras. Entramos no templo e elas ficaram do lado de fora. Quando voltamos, descobrimos que eles haviam se tornado atrações turísticas. Todo mundo vinha olhar, pegar e tirar fotos, deles e com eles. Meus filhos, que até então estavam entediados com tantas imagens de Buda, acharam a experiência de celebridades muito divertida.

As viagens de carro de uma cidade a outra têm sido longas, o que contribui para o tédio das crianças (minha mãe bem que falava que criança não aproveita essas viagens...). Ontem, depois de várias horas no carro, vimos um elefante selvagem na beira da estrada. O motorista parou a van para olharmos e...o elefante correu para cima para nos atacar! Ele acelerou, o elefante nos perseguiu por uns metros, a Ana gritou e as crianças ficaram excitadíssimas; eu tentei tirar uma foto mas só peguei a bunda dele. Nada como um ataque de elefante para quebrar a monotonia da viagem.

sábado, 11 de junho de 2011

Pintas com pelos

Na Ásia tenho visto alguns estilos interessantes. Tem muita gente que deixa crescer a unha do dedo mindinho, naquele estilo cobrador de coletivo. Dizem que isso sinaliza um certo status, pois a pessoa não estaria fazendo trabalho braçal. Vi isso na Ásia toda e até tirei umas fotos de um motorista, com os dois mínimos adornados por belas unhonas. Outro habito bem diferente é a aversão das asiáticas ao sol. Ao contrario das brasileiras, que ficam horas gratinando ao sol, as orientais querem a pele bem branca. Usam sombrinha, não vão à praia nem a pau e ainda usam cremes para branquear a pele. Até as indianas, que têm a pele naturalmente bronzeada, usam creme para tentar clareá-la um pouco.

Mas o que mais me surpreendeu foi quando vi um homem com um cavanhaque bem diferente. Era bem fino e comprido. Na hora me lembrei dos filmes de kung-fu, em que o mestre tem um cavanhaque bem longo, cultivado por muitos anos. Como eu também tenho cavanhaque, fiquei interessado e olhei com atenção. A barbicha era mesmo curiosa. Era um tufo de pelos e não estava no centro do queixo, era meio deslocada para um dos lados. Ainda sem entender direito, cheguei perto e acabei me dando conta que era uma pinta, daquelas bem grandes. Uma verruga, cheia de pelos crescidos, com mais de 4 dedos de comprimento.

Alguns dias depois, vi mais um homem com pelos cercando a sua verruga, crescidos e muito bem cuidados. Acho até que estavam penteados. Sua pinta era mais para perto do pescoço. Contei para meus filhos, que disseram ter visto um homem com pelos parecidos, dirigindo um dos ônibus da escola. Percebi que não era só um caso isolado e fui pesquisar na internet.

Acabei descobrindo que homens de origem chinesa costumam cultivar os pelos que nascem em volta das suas pintas. Alguns dizem que dá má sorte cortar esses pelos. Outros dizem que tê-los é que traz boa sorte. Alguns ainda dão uma razão prosaica: apará-los ao fazer a barba pode provocar uns cortes muito feios. Mas parece que a explicação tem mesmo a ver com sorte: quanto maiores, mais boa fortuna os pelões vão atrair.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Saudades

Quando chegamos a Cingapura, em 2009, meu filho menor passou meses falando que estávamos em férias e logo iriamos voltar a São Paulo. A sensação de não ter sua casa, não ter rotina, equivale à sensação de estar em férias, mas sem relaxar. Toda noite comendo pizza, frango frito, macarrão ou então saindo para comer fora, mas ainda assim tendo que trabalhar e ir para a escola: parece uma festa, mas a gente vai ficando estressada e, quando vê, histérica. Criança, principalmente, precisa de rotina. Lembro-me de um filme japonês chamado "A Rotina Tem seu Encanto". Tem mesmo.

Depois de passar quase dois meses num flat, finalmente fomos para casa e começamos a estabelecer certa rotina. Fazia falta jantar em casa. Meu outro filho falou, depois da primeira vez que fizemos um prato que não era macarrão nem ovo mexido: "finalmente comemos comida de verdade!". Passamos dois meses comendo comida de mentira! O que mais eles sentiam falta era de arroz e feijão. Na churrascaria rodizio perto de casa somos fregueses desde aquela época, e conhecidos de todos os garçons, de tanto que íamos e ainda vamos. Na primeira vez que fomos o pequeno, que normalmente é muito agitado e ruidoso, ficou estranhamente quieto. Depois de uns minutos nos demos conta do silêncio e prestamos atenção. Ele estava devorando seu segundo prato de arroz e feijão, um prato de um tamanho que nem eu daria conta.

As saudades também apertavam muito. Não conhecíamos ninguém na cidade, e tínhamos deixado pessoas muito queridas para trás. Aos poucos fomos criando as rotinas e tendo referências. As crianças foram fazendo amigos na escola, no futebol. Nós também conhecemos os pais dos amigos deles e outras pessoas, de quem ficamos amigos. Nossos amigos e família nos visitaram, o que ajudou a mitigar as saudades.

Agora, que a hora de voltar está próxima, começamos a sentir saudades das coisas de Cingapura. É irônico, mas depois de mais de dois anos querendo voltar a São Paulo, agora, quando a volta está iminente, todo mundo fica dividido. Tem coisas muito boas aqui. O Sudeste Asiático é fantástico; Cingapura, apesar de grande e agitada, é surpreendentemente verde: tem árvores por todos os lados, aves e macacos e mais de uma vez vi raposas voadoras (um tipo de morcego). Nós e as crianças temos ótimos amigos, de quem vamos morrer de saudades. Mas a adaptação a São Paulo vai ser rápida; afinal temos muitos amigos e nossa família lá. E ainda tem pão de queijo, coxinha, chopp, feijoada, cozido...