quarta-feira, 13 de julho de 2011

Cingapura não é Ásia

Já ouvi várias pessoas dizendo que Cingapura não é Ásia. Querem dizer que ela não tem cara de Ásia, é ocidentalizada. Bom, para começar, a Ásia tem muitas caras; Coréia, Índia, Tailândia e Indonésia, por exemplo, não podem ser mais diferentes um do outro. Cada um tem uma língua (ou muitas, no caso da Índia), as religiões são dispares, as histórias coloniais são diferentes e as origens étnicas diversas. Cingapura tem algumas dessas caras: tem indianos, chineses, malaios, filipinos.
Há muitos ocidentais também, e muitos bairros com cara de ocidente. Prédios altos e modernos, avenidas largas com asfalto liso, carros novos. Muitos shopping centers e lojas de grifes de luxo. Teve um conhecido que disse que tinha odiado a cidade porque era apenas “um monte de shopping centers interligados por passagens subterrâneas”. Uma visão muito superficial, influenciada pelo conceito de que quem não é ocidental deve viver o resto dos tempos em prédios antigos e roupas típicas, para deleite dos turistas. Tanto a Ásia como América Latina e África merecem os confortos materiais que o chamado ocidente alcançou.
Isso Cingapura já conseguiu, de maneira exemplar, em apenas 46 anos de independência; mas tem coisas muito asiáticas. Quem leu um post anterior sabe que os homens que têm pintas no rosto (aquelas bem salientes), deixam crescer os pelos que saem delas. Ficam fios bem longos, como se fosse uma barba, só que só na verruga. Isso é uma tradição chinesa e dizem que dá sorte. Também contei sobre os “food courts” de lá (parecidos com as praças de alimentação daqui), que têm só comida asiática. Tem uma ou outra lojinha que vende “western food”, que geralmente são uns bifes na chapa, files de frango empanados e hambúrgueres servidos com arroz e salada. Mas é só isso; todas as outras têm só têm Nasi Lemak, Nasi Padang e Nasi Goreng, Prata, Dumplings, Chicken e Duck Rice e Noodles, Popiah, Carrot Cake (não aquele coberto de chocolate; é frito e salgado), noodles de todos os tipos, fishballs, curries, mingaus e sopas variados. Muitos dos cingapurianos, principalmente os que trabalham ou casam com ocidentais, enjoam-se rapidamente da sua comida. Gostam mesmo é da comida asiática.
Os taxis dificilmente seriam como são se não fosse na Ásia: os carros tem uma cara normal, mas quando se entra, a primeira coisa que você sente é o cheiro de peixe. Eles passam umas 12 horas por dia no carro e fumam e comem lá. A comida sempre tem um caldo de peixe como base, portanto o carro fica impregnado com aquele cheiro. Os motoristas são bem chineses, falam um inglês quase ininteligível.
A cultura Asiática também impera nas relações. Ninguém levanta a voz e brigas são muito incomuns. Se alguém se destempera, as outras pessoas o consideram muito imaturo e perdem o respeito. O conflito normalmente é evitado e nunca se deve colocar uma pessoa em uma situação que a deixe sem saída ou constrangida – é um supremo desrespeito fazer o outro passar esse tipo de vergonha.
Os avós têm um papel essencial na criação dos netos. Eles praticamente os criam, enquanto os pais trabalham. Muitos casais vivem com os pais e não se incomodam se os avós interferem na educação dos netos – esse é seu papel. Ser idoso é sinal de experiência e conhecimento e não de ultrapassado.
Apesar de a cidade ter crescido muito, ainda se vê por aí um riquixá ou outro, principalmente perto de Chinatown. E por todos os lados veem-se os templos chineses, indianos e mesquitas, não só em Chinatown, Little India ou no bairro malaio. Cingapura não é Ásia só a primeira vista; quando se conhece bem, é Ásia até o pescoço

Um comentário:

rodrigo bussab disse...

Xará, tive o prazer de comer um Chicken Rice "in loco" com você. Obrigado!